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Resumo do livro "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política" (2024) de Nino Rhamos

O livro "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política" de Wallace Ramos de Figueiredo (Nino Rhamos) apresenta uma análise aprofundada do xondaro, uma prática corporal dos indígenas Guarani, explorando-o como uma forma única de arte marcial, performance e ferramenta política. A obra é fruto das pesquisas de bacharelado e mestrado do autor na UERJ e busca oferecer uma compreensão multifacetada do xondaro, indo além de meras definições físicas e explorando suas profundas conexões culturais, espirituais e políticas.

Resumo do livro "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política" (2024) de Nino Rhamos

A seguir, um resumo detalhado dos principais argumentos e como o autor os desenvolveu em cada capítulo:

Parte 1: Corpo e Alteridade

A primeira parte do livro explora como o xondaro influencia a socialização e a percepção do mundo entre os Guarani, utilizando depoimentos e entrevistas para ilustrar esses processos. O autor estabelece o corpo como um elemento central na compreensão das práticas sociais e culturais.

  • O Corpo: Um Instrumento?

    • Argumento Principal: O autor desafia a visão comum do corpo como um mero "objeto" ou "instrumento" passivo, argumentando que ele é fundamentalmente moldado e transformado pelas interações culturais e sociais, atuando como um agente ativo.
    • Desenvolvimento: Figueiredo inicia questionando a noção de corpo como algo predefinido, introduzindo conceitos que promovem uma perspectiva mais ampla da relação mente-corpo. Ele se baseia em Marcel Mauss (2006) para afirmar que o corpo é o "primeiro e o mais natural objeto técnico". Em seguida, com Clifford Geertz (2008), o autor argumenta que as modificações biológicas humanas ocorreram em paralelo aos processos de socialização e invenções culturais, com a cultura sendo um ingrediente essencial na produção do próprio ser humano. João Cezar de Castro Rocha Rodrigues (2006) é citado para reforçar que o ambiente social imprime simbolismos e valores no corpo. Finalmente, a obra de Sherry Ortner (2006) sobre agência permite ao autor posicionar o corpo não como uma vítima do ambiente, mas como um agente transformador. O capítulo também introduz a complexidade da comunicação não verbal e sensorial, crucial para entender o xondaro, utilizando as perspectivas de Carlos Antonio de Souza Quilici (2004) e Antonin Artaud. O autor adota o paradigma da corporeidade de Thomas Csordas (2008) para investigar como a objetivação ocorre no praticante de xondaro e como isso afeta sua interação com o "Outro". Conclui que as artes marciais, incluindo o xondaro, são eventos performáticos que integram arte, dança, religião, e o elemento de risco, moldando a identidade do praticante e sua relação com o adversário.
  • Arte marcial

    • Argumento Principal: Este capítulo estabelece o xondaro como uma arte marcial distinta, que vai além do combate físico, incorporando filosofia, religião, desenvolvimento pessoal e rituais.
    • Desenvolvimento: O autor traça as origens das artes marciais na necessidade de proteção e uso do corpo como arma, citando Paiva (2015) e Mauss (2006). Ele enfatiza que essas práticas estão inseridas em dinâmicas sociais complexas, não sendo meros resultados de conflitos. A abordagem de Wojciech Cynarski (2015, 2017) é adotada como pilar da análise, pois Cynarski considera os processos subjetivos, as disputas de poder, as transformações do "Eu" e as concepções metafísicas. Cynarski propõe quatro características fundamentais para diferenciar uma arte marcial de outras práticas de combate:
      1. Presença de uma filosofia original ou código de ética: Relacionado à conduta do praticante.
      1. Relação estreita com sistemas religiosos: Como o Confucionismo.
      1. Ênfase na cultura física em conjunto com o desenvolvimento da personalidade: Práticas ascéticas que justificam o entendimento das artes marciais como cultura psicofísica.
      1. Existência de cerimônias relacionadas a ritos de passagem: Que contribuem para o crescimento pessoal e mudança de posição social, frequentemente em um ambiente de prática específico.
    • Figueiredo argumenta que o xondaro, apesar de sua forma incomum e sua descrição frequente como "dança", possui todas essas características, o que o qualifica como uma arte marcial na perspectiva antropológica, distanciando-o de abordagens estereotipadas ou puramente esportivas.
  • Xondaro

    • Argumento Principal: O xondaro é apresentado como uma prática Guarani com múltiplos significados, que transcende a definição de luta ou dança, sendo uma forma de conhecimento vivencial ligada à identidade, espiritualidade e preparação para a vida.
    • Desenvolvimento: O capítulo começa contextualizando a etnia Guarani e suas subdivisões no Brasil. O autor, citando a publicação "Pesquisadores Guarani" (2013), enfatiza que o xondaro não tem uma definição precisa, pois sua verdadeira compreensão vem da experiência e da convivência diária. Ele explica que o termo xondaro abrange a dança, uma função social e um modo de se comportar, servindo para preparar os jovens para a vida adulta, a sobrevivência na mata e a manutenção do estado físico e espiritual. A prática ajuda a desenvolver agilidade e leveza corporal, eliminando doenças através do suor, e proporciona alegria. O conceito de "kyre’ymba" (abelha ágil) é usado para descrever o xondaro que alcançou a plenitude. São apresentados os diferentes nomes da dança, suas variações regionais e o papel do xondaro ruvixa (líder) na condução, permitindo flexibilidade nos movimentos. Os instrumentos musicais (violão, rabeca, chocalho, tambor) e sua preparação específica são detalhados como elementos que se entrelaçam com a dança e o movimento, criando uma "intensificação de potências". O capítulo também descreve as duas fases da dança (imitação do líder e superação de obstáculos) e a dualidade dos papéis sociais do xondaro porã (auxílio cotidiano) e xondaro poxy (resolução de conflitos). A espiritualidade é um pilar crucial, com os xondaros físicos sendo vistos como guardiões da criação na terra, em conexão com Nhanderu Kuery (divindade Guarani). O autor ressalta que certas questões espirituais só são discutidas na casa de reza (opy), evidenciando a importância da vivência e do não-verbal.
  • Entre o Eu e o Outro

    • Argumento Principal: A comunicação no xondaro e nas interações Guarani é sutil e frequentemente não-verbal, onde a "performance" adquire uma dimensão expressiva mais profunda do que a verbalização, redefinindo a relação com o "Outro".
    • Desenvolvimento: Figueiredo reflete sobre sua experiência com o mestre xondaro, notando sua comunicação reservada e as pausas prolongadas nas respostas, que se diferenciavam das expectativas ocidentais de objetividade. Ele interpreta essa conduta como uma "ambiguidade necessária", onde a performance e o corpo transmitem significado. O autor utiliza Luís K. Santos (2017) para corroborar essa vivência, citando a fala do líder Karai Mirĩ sobre as palavras vindo do "coração" e a dança como manifestação divina. Isso sugere que a linguagem falada não é o principal veículo de sentido. A discussão sobre o ritual xarura, onde perguntas e respostas se sobrepõem, reforça a ideia de que a comunicação verbal é secundária. O autor se apoia nas cinco qualidades inter-relacionadas do paradigma da performance de Esther Jean Langdon (2006) – experiência em relevo, participação-expectativa, experiência multissensorial, engajamento corporal-sensorial-emocional e significado emergente – para analisar o xondaro, focando no engajamento corporal e sensorial que desafia dicotomias mente-corpo. Ele aplica os conceitos de "cenário" e "plateia" de Erving Goffman (2009) para descrever como o xondaro se manifesta em dois momentos performáticos interligados: a prática diária (onde o adversário é subjetivo) e o confronto real (onde o adversário é objetivo). O objetivo da pesquisa é entender como a prática do xondaro busca redefinir o "Outro" (adversário) em vez de apenas derrotá-lo, operando em um nível que antecede o objetivável.
  • O retorno ao pré-objetivo

    • Argumento Principal: A prática do xondaro visa o retorno a um estado pré-objetivo de percepção e sensação, uma redefinição do "Outro" que transcende o treinamento físico e a lógica sistemática, atuando no âmbito do não-discursivo.
    • Desenvolvimento: Figueiredo contesta a noção de que as artes marciais se concentram apenas no aprimoramento físico para a derrota do inimigo. Ele utiliza a filosofia de Maurice Merleau-Ponty (através de Csordas), que valoriza a percepção como originária do corpo, anterior à objetivação. As "respostas distantes" do mestre xondaro são interpretadas como uma forma de expressar o que não pode ser verbalizado, indicando uma intuição além da lógica. O capítulo detalha quatro elementos do xondaro que incentivam esse retorno ao pré-objetivo:
      1. A Força do Coração: "Sentir o coração" (nhe'e, alma-palavra) é a condição primordial para acessar os aspectos sensoriais do corpo, guiando o praticante a um estado anterior à fala e cultivando uma direção subjetiva. Testemunhos do documentário confirmam a importância da espontaneidade e da conexão emocional na escolha e validação dos praticantes.
      1. O Estado da Dança: A música não é apenas ritmo, mas define a intensidade do envolvimento sensorial, levando os praticantes a um estado de redução do pensamento racional e acesso a percepções sensíveis. É o praticante, e não o músico, quem dita a necessidade de intensificação do ritmo para alcançar a "essência da dança". O ambiente da opy (casa de reza), com sua fumaça e cheiros, também contribui para essa experiência multissensorial.
      1. O Popygua: As "varetas" utilizadas pelo ruvixa produzem sons que simulam ameaças e, de forma não verbal, estimulam a percepção e a esquiva, atuando como um "gatilho" para o retorno ao estado pré-objetivo e como um "ajudante espiritual".
      1. A Ação do Mestre Ruvixa: A conduta "aparentemente aleatória" do mestre durante a dança, especialmente em ambientes fechados, é uma estratégia para estimular o lado perceptivo do praticante, evitando a sistematicidade das artes marciais esportivas e promovendo um estado sensorial.
    • A conclusão desta primeira parte reitera que o xondaro não anula a razão ou o corpo objetivado, mas busca simultaneamente um estado sensorial de percepção e a re-emergência ao habitus, desafiando dicotomias e valorizando aspectos sensoriais sem impor uma racionalidade técnica rígida.

Parte 2: A performance marcial como estratégia política imagética

A segunda parte do livro aprofunda a compreensão do xondaro como uma prática performática que transcende a execução física, destacando a produção imagética por meio do corpo como uma forma de exercer agência e estratégia política.

  • De volta ao campo

    • Argumento Principal: Este capítulo contextualiza a pesquisa em meio aos desafios políticos e sociais enfrentados pelos Guarani (pós-2018, pandemia), e apresenta a metodologia de campo do autor, que buscou compreender o xondaro não apenas como combate físico, mas como uma prática coletiva de resistência e agenciamento político.
    • Desenvolvimento: O autor descreve o cenário de aumento da violência e violação de direitos contra os povos indígenas no Brasil após as eleições de 2018 e durante a pandemia de Covid-19, o que dificultou seu trabalho de campo planejado. Sua experiência pessoal na adolescência com artes marciais, que o levou a questionar estereótipos e dinâmicas de poder em academias, motivou-o a estudar o xondaro como uma prática coletiva de agenciamento que se distingue do caráter esportivo.
    • Figueiredo revisa as particularidades do xondaro já abordadas, como suas variações de sentido (guerreiro, soldado, atitude política) e suas características de dança acompanhada por música e liderada pelo ruvixa, com duas fases de movimento. Ele critica a pouca ênfase no aspecto de luta do xondaro em estudos anteriores, que tendem a abordá-lo apenas ritualisticamente, e destaca a importância de compreendê-lo como uma prática de combate com múltiplas dimensões interligadas.
    • São citados Luís K. Santos (2017) por sua análise da "esquiva" como estratégia política de "fazer errar" o adversário; e Marize S. R. Mendes (2006) por sua exploração do poder da dança além do físico, suscitando sensações e intenções. O livro "Xondaro mbaraete - a força do xondaro" (2013), produzido por jovens Guarani, é destacado como fonte essencial para entender a importância ética do xondaro na formação da identidade e comportamento, distinguindo o guerreiro xondaro do não-xondaro em contextos de conflito.
    • O autor reforça que o corpo porta as marcas da vida social (Rodrigues, 1979) e é afetado por ações estruturais (Bourdieu, 2017). A pesquisa visa mostrar a transformação desse corpo socialmente formado em um agente que transcende ideias individuais, usando a antropologia da performance e da arte (Alfred Gell) para aprofundar a análise do xondaro como uma prática marcial com fins políticos imagéticos.
  • O elemento agonista

    • Argumento Principal: O agonismo no xondaro não é apenas violência física, mas uma estratégia política que se manifesta de múltiplas formas (física, simbólica, imagética), muitas vezes combinando elementos de luta com ludicidade e espiritualidade para influenciar o "Outro".
    • Desenvolvimento: O capítulo define "agonismo" como disputa e enfrentamento, questionando a associação comum de contato físico com comportamento "incivilizado". Ele critica teorias que universalizam a violência humana (como Hobbes, 2003) e que omitem a guerra nos estudos sociais, defendendo que o conflito é uma forma de interação social, com interpretações culturais variadas. Utiliza Clifford Geertz (2008) e a briga de galo balinesa para ilustrar como disputas podem transmitir significados sociais e emocionais profundos.
    • O autor diferencia o agonismo verbal (civilizado vs. agressivo) do agonismo corporal (tortura/morte vs. artes marciais com ética), mas ressalta que essa categorização é ilustrativa, pois a violência pode ser expressa de diversas formas, e a ética ideal nem sempre se alinha com as dinâmicas sociais reais. Ele argumenta que a discussão política não se restringe ao verbal, e que elementos corporais podem ser empregados para negociação de interesses.
    • As experiências de campo do autor revelam a ambiguidade do xondaro: o cacique da aldeia Sapukai descreveu os xondaros como "soldados Guarani" que lutavam e até matavam (historicamente), enquanto o mestre da aldeia Pyau, apesar de enfrentar ameaças constantes, enfatizava o aspecto lúdico da prática. Essa aparente contradição é, na verdade, uma estratégia política que transcende narrativas.
    • A dimensão mente-corpo: O autor explora como algumas artes marciais abordam a conexão mente-corpo, desafiando a dicotomia ocidental de mente (racional/civilizado) versus corpo (animalístico/problemático). Ele cita Norbert Elias (1996) sobre o "corpo incivilizado" e as narrativas de Luís K. Santos e Daniela Bregalda (2017) sobre a "força do coração" (py'a) como centro da alma-palavra (nhe'e) e do conhecimento divino entre os Guarani. Essa ênfase no sensorial em detrimento da racionalização e argumentação é vista como uma prática política da esquiva. A própria experiência do autor com respostas evasivas dos Guarani é interpretada como uma manifestação dessa "esquiva" ou "manipulação da performance".
  • PERFORMANCE MARCIAL

    • Argumento Principal: A performance marcial é uma atividade corporal agonística composta por dois momentos interdependentes: a preparação (com um inimigo subjetivo) e o confronto real (com um inimigo objetivo), onde a estética e os rituais são cruciais para influenciar o adversário antes mesmo do contato físico.
    • Desenvolvimento: Figueiredo retoma as quatro características de Cynarski para definir o que é uma arte marcial. Ele conecta essas ideias à perspectiva de Erving Goffman (2009) sobre eventos performáticos e cenários. A performance marcial, assim, não é apenas execução física, mas uma configuração especial do espaço e tempo, com um inimigo concebido subjetivamente na primeira fase (preparação) e materializado na segunda (confronto).
    • O autor utiliza a capoeira como exemplo, mostrando como a "valentia" e a preparação mental para o combate (inimigo subjetivo) são pré-requisitos para pertencer ao grupo, e como a roda de capoeira pode se transformar de "treinamento" em "duelo real" (inimigo objetivo). Ele também compara as artes marciais africanas (Dambe, Nekang, Laamb, Umladlo Wezinduku, Mgba) e o Wushu chinês, que integram espiritualidade e rituais na preparação (primeira performance) para obter vantagem no combate físico (segunda performance), ilustrando essa interdependência. A ideia é que um momento não existe sem o outro, e toda a preparação visa a aplicação futura das habilidades.
  • A MANIPULAÇÃO DA PERFORMANCE NAS RELAÇÕES

    • Argumento Principal: A interação Guarani com não-indígenas envolve uma manipulação deliberada da performance (verbal e não-verbal) para criar um estado liminar de incerteza e vulnerabilidade no "Outro", o que lhes permite exercer agência e controle sobre a relação, funcionando como uma estratégia de resistência política.
    • Desenvolvimento: O autor narra suas próprias experiências de campo: o "constrangimento" inicial com o mestre xondaro devido a pausas e respostas evasivas, e a desafiadora chegada à aldeia Sapukai, marcada por instruções vagas e a sensação de ser um "turista". Ele percebe que o distanciamento do mestre Pyau não era pessoal, mas um "modo de ação característico".
    • Figueiredo analisa esses "microcomportamentos" sob a luz da teoria de Roberto Cardoso de Oliveira (1996) sobre "fricção interétnica", onde a contradição e a diferença de "gêneros de fala" (entoação, pausas, narrativas metafísicas) geram desconforto e colocam o pesquisador em um estado liminar. Essa quebra da coerência esperada na interação é uma ação política para subverter hierarquias e restaurar a agência indígena.
    • O autor conecta essa estratégia ao "paradoxo da autenticidade 'moderna'" de Marcos Albuquerque (2012): os indígenas precisam se empoderar e acessar códigos da sociedade nacional para defender seus direitos, mas são então criminalizados e deslegitimados como "autênticos". A manipulação da performance permite que os Guarani evitem ser enquadrados nesses estereótipos de "tutelado" ou "hostil", ganhando controle da relação.
    • Ele cita Luís K. Santos (2017) novamente para explicar o uso do humor e da "enganação" (exemplificada pela figura de Peru Rimã, o Pedro Malasartes Guarani) como formas políticas ambíguas de superar adversários mais fortes e subverter posições.
    • As histórias heroicas dos xondaros contadas pelo mestre, com seus poderes metafísicos e a constante ênfase no caráter bélico, mas com um desfecho ambíguo, servem para construir uma imagem poderosa no imaginário do não-indígena, gerando apreensão e incerteza, e assim, mobilizando ou desmobilizando um potencial adversário. Essa "manipulação da performance discursiva" busca projetar um estado liminar no "Outro".
  • PERFORMANCE E A AGÊNCIA DA IMAGEM

    • Argumento Principal: O corpo em xondaro performance, especialmente em situações de confronto político, gera agência através de sua imagem visual, criando um impacto estético que afeta a percepção do oponente e serve como uma "estratégia política imagética" para vencer disputas sem necessariamente recorrer ao contato físico direto.
    • Desenvolvimento: O capítulo começa revisitando conceitos de performance de Richard Schechner (com Taylor, 2013) sobre "condutas duplamente condicionadas" e a necessidade de contexto para eventos performáticos. Ele diferencia a performance discursiva da que transcende o discurso, mas é igualmente "real". A análise incorpora a metáfora do teatro de Goffman (2009) sobre cenários e papéis, embora reconheça a crítica de Langdon (2006) sobre a omissão do conflito em Goffman.
    • A pesquisa foca na segunda performance marcial (o confronto real), onde elementos estéticos (movimentos, gritos, simulações) são usados para influenciar o adversário e criar uma "fronteira" entre o contato físico e sua ausência, induzindo medo ou dúvida.
    • O autor descreve a experiência de assistir a vídeos de xondaro com o mestre Pyau, que os utilizava para "atuar" imageticamente, mostrando a eficácia do xondaro em manifestações políticas. O exemplo da ocupação da prefeitura de São Paulo pelos xondaros é central: seus movimentos circulares e gritos de guerra criaram uma "confusão" visual e sonora que paralisou os guardas sem contato físico, demonstrando a ação coletiva do xondaro na segunda performance.
    • Para explicar como a imagem do corpo produz agência, Figueiredo se aprofunda na antropologia da arte de Alfred Gell (2018), que define a arte não por sua estética intrínseca, mas por seu papel nas relações sociais e sua capacidade de gerar agência. Gell argumenta que pessoas vivas podem ser objetos de arte e mediadores de agência, como o kumari (virgem divinizada).
    • O autor desenvolve o conceito de "quadro performático": o momento em que o indivíduo "deixa de ser humano e se converte em uma obra de arte" através de sua atuação, com um início e fim definidos pelo evento performático. Essa estética, criada pelo corpo em movimento, tem uma funcionalidade psicológica, influenciando a conduta do "Outro" (como a "tecnologia do encantamento" de Gell). O exemplo dos desenhos na areia dos Malakula (citado por Gell) reforça que o "aspecto performativo do procedimento de desenho" é mais importante que o artefato, validando a ideia de que a estética é funcional e a agência é produzida pela performance do corpo.
    • A "manipulação da performance discursiva" e a "manipulação imagética" da segunda performance marcial são estratégias que geram ambiguidade e vulnerabilidade no adversário, permitindo aos Guarani resistir à tutela e afirmar sua identidade sem serem rotulados. A imagem do xondaro guerreiro, exibida em vídeos e manifestações, atua como uma tática para "vencer sem tocar", impactando a subjetividade do oponente e redefinindo as relações de poder.

Considerações Finais da Segunda Parte: O livro conclui que o xondaro é uma prática marcial Guarani complexa e inteligente, que atua em múltiplas dimensões, utilizando recursos estéticos e imagéticos do corpo em performance como uma poderosa estratégia política para proteger seus interesses e identidade. Ele não se limita à defesa física, mas serve como uma constante restauração dos mecanismos de defesa da aldeia, tanto contra ameaças externas quanto para resolução de conflitos internos. A coletividade do xondaro, com sua atuação em círculos e gritos de guerra, causa "confusão" e desestabiliza o oponente, como visto na ocupação da prefeitura de São Paulo, permitindo "vencer sem tocar". A obra abre caminho para futuras pesquisas sobre a relação entre artes marciais e o uso estratégico de imagens em contextos sociopolíticos.

Nino Rhamos


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