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Resumo do livro "Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power" (1957) de Karl Wittfogel

Introdução

Na Introdução, Wittfogel estabelece o propósito de seu estudo: analisar a peculiaridade dos sistemas despóticos não ocidentais, especificamente o "despotismo oriental", e interpretar o totalitarismo comunista como uma variante "gerencial total" e muito mais despótica desse sistema. Ele destaca o uso de "grandes conceitos estruturados" para identificar grandes padrões de estrutura e mudança social, uma metodologia empregada por pensadores como Aristóteles e Adam Smith

Resumo do livro "Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power" de Karl Wittfogel

Wittfogel argumenta que essa abordagem "macro-analítica" é vital para entender a complexa economia industrial moderna, especialmente no mundo comunista. Ele adverte que esforços para compreender fenômenos como a liderança coletiva e a autocracia comunista, ou crises agrárias na URSS e na China, serão problemáticos se negligenciarem o "único grande precedente de poder total duradouro e bem-sucedido: o despotismo oriental".

Wittfogel explica sua decisão de cunhar os termos "sociedade hidráulica" e "civilização hidráulica" como sinônimos mais apropriados para os termos tradicionais "sociedade oriental" e "sociedade asiática". Esta nova nomenclatura, que enfatiza a ação humana sobre a geografia, facilita a comparação com "sociedade industrial" e "sociedade feudal" e permite incluir civilizações agrárias pré-hispânicas e paralelas na África Oriental e Pacífico (como o Havaí). O termo "hidráulica" destaca o caráter agrogerencial e agroburocrático dessas civilizações devido ao papel proeminente do governo na gestão de grandes obras de irrigação e controle de inundações.

O autor também aborda a recepção de sua teoria, notando a "hostilidade apaixonada" da nova burocracia gerencial totalitária, o comunismo, que a considerou politicamente "inadmissível". Ele revela que ideólogos soviéticos, em 1931, admitiram cinicamente que suas objeções eram de interesse político e não científico. Em 1950, a "derrota da notória teoria do 'modo de produção asiático'" foi considerada a maior conquista dos estudos orientais soviéticos. Wittfogel enfatiza que Marx e Engels, diferentemente da concepção soviética, defendiam a objetividade científica e usaram o conceito de uma sociedade asiática/oriental específica, incluindo a China e a Rússia Czarista como "semi-asiáticas".


Capítulo 1: O Cenário Natural da Sociedade Hidráulica

Embora o excerto forneça apenas o título e subtítulos detalhados, o tema central desse capítulo, inferido da introdução e outras partes da fonte, é que o desenvolvimento de grandes sistemas de irrigação e controle de inundações em ambientes áridos, semiáridos ou até mesmo úmidos específicos (onde as inundações exigem organização) leva a um tipo particular de sociedade.

O argumento principal é que a gestão da água em grande escala necessita de uma organização centralizada. Essa necessidade não é meramente tecnológica, mas fundamentalmente organizacional, impulsionando a formação de um estado forte e burocrático. Wittfogel distingue a agricultura de pequena escala (hidroagricultura) da agricultura que envolve obras governamentais de grande escala (agricultura hidráulica). Ele argumenta que a peculiaridade de uma sociedade hidráulica reside na resposta do homem a um cenário natural específico, que se torna um fator formativo apenas sob condições culturais muito específicas, e que essa resposta envolve principalmente mudanças organizacionais, não apenas tecnológicas.


Capítulo 3: Poder Despótico — Total e Não Benevolente

Este capítulo, conforme o título e os subtítulos, afirma que o poder do governo hidráulico é inerentemente despótico, total e não benevolente. A natureza despótica do governo hidráulico, particularmente na forma "Oriental despotism", é descrita como uma forma extremamente dura de poder absolutista.

Wittfogel refuta a ideia de que regimes despóticos seriam limitados por controles institucionais e morais que os tornariam suportáveis ou benevolentes. Ele argumenta que a concentração de funções vitais – militar, agrogerencial e religiosa – nas mãos do governo hidráulico confere-lhe um poder genuinamente despótico (total), diferente da Europa feudal onde as esferas de poder eram mais fragmentadas.


Capítulo 4: Poder Despótico — Total e Não Benevolente (continuação)

Este capítulo aprofunda a análise do "Poder Total".

  • Ausência de Controles Constitucionais Efetivos: Wittfogel argumenta que a existência de regulamentações constitucionais ou códigos de lei (como na China imperial, Índia ou Império Bizantino) não implica um governo constitucionalmente restrito. O governante, com autoridade administrativa, gerencial, judicial, militar e fiscal completa, pode unilateralmente alterar as normas a qualquer momento.
  • Ausência de Controles Sociais Efetivos: Não existem centros de autoridade independentes (como cidades livres, corporações ou nobreza com privilégios de terra) capazes de controlar o regime hidráulico. O suposto "direito de rebelião" ou a "eleição" do déspota não são remédios eficazes contra a opressão; a violência dentro dos círculos governantes, longe de temperar o despotismo, tende a torná-lo mais opressor.
  • A Tendência Cumulativa do Poder Irrestrito: Wittfogel postula uma "tendência cumulativa do poder irrestrito" em estados despóticos. O detentor da posição mais forte expande sua autoridade até que "apenas ele prevaleça", formando um centro autocrático único de organização e tomada de decisões. Mesmo que o governante delegue funções a um vizir ou se apoie em conselheiros, o aparato governamental permanece absolutista. Os grandes monarcas do mundo oriental são quase sem exceção "auto-governantes" — autocratas.
  • Controle Quase Total da Vida Comum: Embora regimes despóticos como o Inca ou o Chinês clássico pudessem desejar um controle ubíquo, a inspeção efetiva da vida doméstica dos plebeus exigiria uma vasta burocracia insustentável. Em vez disso, eles mantinham controle firme sobre as esferas estrategicamente importantes da sociedade. O sistema de inteligência e coerção bloqueava o surgimento de organizações primárias independentes e impedia que indivíduos descontentes ganhassem proeminência.
  • "O Poder Absoluto Corrompe Absolutamente": Wittfogel adota a tese de Lord Acton. Ele argumenta que a política do déspota é dirigida para o "óptimo de consumo" do governante e não para o do povo. Isso é alcançado pela concentração do excedente nacional nas mãos dos governantes e pela proibição legal do uso geral de objetos de prestígio, reservando o consumo conspícuo para si.
  • O Mito da Benevolência: O mito da benevolência do déspota e de seus auxiliares cumpre uma função dupla: educar e disciplinar membros do próprio grupo dominante para não negligenciar a gestão e evitar a taxação excessiva ou a injustiça provocadora, visando a estabilidade do regime a longo prazo. Além disso, enfraquece a oposição potencial, ao fazer o povo acreditar que os problemas são devidos a funcionários individuais e não ao sistema. A crítica pública é insignificante e, quando existe, geralmente visa regenerar o sistema de poder total, cuja fundamental desejabilidade não é questionada. A realidade é que o despotismo hidráulico é "benevolente na forma e opressivo no conteúdo".

Capítulo 5: Terror Total — Submissão Total — Solidão Total

Este capítulo explora os mecanismos de controle psicológico e social em sociedades despóticas.

  • Terror Essencial: A necessidade de governo através da punição é enfatizada por muitos porta-vozes do despotismo hidráulico. Livros de leis como o de Manu na Índia estabelecem a punição como o fundamento da paz e ordem internas, fazendo com que todos se comportem adequadamente. Exemplos históricos de terror espetacular são dados, como no Havaí antigo e no Egito pré-histórico. Em civilizações mais diferenciadas, o terror pode ser mais racionalizado, mas ainda assim brutal, como no Califado Abássida, com execuções improvisadas e exibição de cabeças. A tortura era um procedimento judicial regular no Egito faraônico, e fontes indianas (Arthashastra) e chinesas descrevem torturas detalhadas para extrair confissões, com exceções para certas classes como os brâmanes.
  • Submissão Total: A obediência é apresentada como a virtude primordial em sociedades como a mesopotâmica, onde "a 'vida boa' era a 'vida obediente'". O Alcorão exorta os crentes a obedecerem às autoridades, e em estados absolutistas islâmicos, isso foi usado para enfatizar a importância fundamental da obediência. Confúcio via a reverência a um superior como um dever básico, com o plebeu não tendo escolha.
  • Preparação para a Obediência Total: A educação desempenha um papel crucial, interligando a obediência em casa à obediência ao oficial. O confucionismo descreve a piedade filial como uma preparação única para a obediência cívica: "Há poucos que, agindo apropriadamente com seus pais e irmãos mais velhos, estão inclinados a se opor a seus superiores. E não há ninguém que, sendo avesso a se opor a seus superiores, esteja inclinado a fazer uma rebelião".
  • Solidão Total: O déspota vive em isolamento e desconfiança, não confiando em ninguém, nem mesmo em familiares próximos. Isso se estende aos oficiais, que vivem sob suspeita eterna. O plebeu vive com o "medo de ser pego por envolvimento". A solidão é um produto do medo e se intensifica na "hora da perdição", onde a vítima do terror despótico pode ser separada não apenas de seus amigos, mas também de sua boa reputação, como ilustrado pelo historiador chinês Ssu-ma Ch'ien ou o vizir persa Rashid ad-Din.

Capítulo 6: O Núcleo, a Margem e a Submargem das Sociedades Hidráulicas

Neste capítulo, Wittfogel refina sua tipologia de sociedades hidráulicas.

  • Resultados Básicos: Ele reitera que a sociedade hidráulica é uma ordem institucional específica. Embora elementos geográficos, tecnológicos e econômicos sejam importantes, a resposta ao cenário natural só desempenha um papel formativo sob condições culturais muito específicas, envolvendo mudanças organizacionais em vez de tecnológicas. A sociedade hidráulica se distingue pela qualidade e peso de suas características (organização hidráulica e despotismo agro-hidráulico), que se combinam para formar um "empreendimento em funcionamento" capaz de se perpetuar por milênios, tornando-a a mais despótica e duradoura entre as civilizações pré-industriais superiores.
  • Problemas de Densidade Hidráulica: Wittfogel introduz o conceito de "densidade hidráulica", classificando as sociedades em núcleo (compacto e difuso/frouxo), margem e submargem.
    • Núcleo Compacto: Áreas onde as operações hidráulicas são extensivas e intensivas.
    • Núcleo Difuso/Frouxo: Áreas onde as operações hidráulicas são menos intensivas, mas a organização despótica ainda é central.
    • Margem: Sociedades que, embora não necessariamente desenvolvidas a partir de instituições hidráulicas, adotam seus métodos organizacionais e aquisitivos, especialmente a artesania estatal despótica, sem necessariamente possuir as instituições hidráulicas que deram origem a esse despotismo. Exemplos incluem o Império Bizantino e a Rússia czarista (pós-mongol), a civilização maia.
    • Submargem: Sociedades que podem cruzar a "divisória institucional", movendo-se em direção a uma sociedade hidráulica ou vice-versa. Ele nota que o despotismo oriental não se limita a sociedades agrárias; povos não agrícolas, como os Liao (ch'i-tan) e os mongóis, podem adotar e transmitir técnicas de governo despótico e "orientalizar" grupos não agrícolas.
  • Padrões Fragmentadores de Herança e Religião Dominante Dependente do Governo: Dois critérios suplementares para a classificação:
    • Herança Fragmentadora: As leis de herança no mundo hidráulico geralmente prescrevem uma divisão igualitária da propriedade entre os herdeiros, especialmente os filhos. Isso, argumenta Wittfogel, leva a um parcelamento inevitável até das maiores propriedades, prevenindo a acumulação de grandes bases de poder territorial privadas que poderiam desafiar o estado. Ele contrasta isso com a Europa medieval, onde as terras feudais podiam ser perpetuadas e os barões mantinham uma posição destacada em relação ao rei.
    • Religião Dependente do Governo: Ao contrário da Europa feudal, onde a religião dominante era independente do governo secular, nas sociedades hidráulicas, a religião dominante é "intimamente ligada ao estado". O governante e os altos oficiais frequentemente exerciam funções sacerdotais cruciais, ou o governo nomeava e tratava os sacerdotes como funcionários seculares. Embora religiões secundárias pudessem ser toleradas (como cristianismo e judaísmo sob o Islã, ou budismo na China), seus seguidores tinham um status inferior e eram impedidos de se expandir ou mesmo de praticar livremente em certos aspectos. Wittfogel afirma que essa concentração de funções (militar, gerencial, religiosa) é o que dava ao governo hidráulico seu poder genuinamente despótico.

Capítulo 7: Propriedade Gerencial e Privada

Neste capítulo, Wittfogel discute o papel do governo na economia e a natureza da propriedade nas sociedades hidráulicas.

  • O Governo como Proprietário/Controlador Dominante: Wittfogel argumenta que o estado hidráulico "controla" a "grande água" do país em vez de "possuir". Mais broadly, ele gerencia a maioria das grandes empresas industriais não-construtivas (como mineração e fabricação de armas/têxteis), seja diretamente ou através de controle monopolista. Essa característica distingue o estado hidráulico tanto dos estados gerenciais totais modernos (que são baseados na indústria e operam toda a economia) quanto dos estados laissez-faire ocidentais (que se baseiam na propriedade privada e na liberdade de mercado). O estado hidráulico cumpre funções econômicas cruciais através de trabalho comandado (forçado).
  • A Inconsequência Política da Propriedade Privada Grande: Embora em certas condições (como em algumas fases da Babilônia, Índia budista, Mesoamérica pré-conquista, Oriente Próximo islâmico e China imperial) o estado permitisse que comerciantes privados manipulassem a maior parte do comércio e até enriquecessem fabulosamente, essa grande propriedade mercantil permanecia "politicamente inconsequente". Wittfogel desafia a crença de que qualquer forma de planejamento estatal benevolente é preferível à predominância da propriedade privada, afirmando que suas análises mostram as limitações da propriedade privada não-burocrática (e burocrática) sob o despotismo oriental.

Capítulo 8: A Classe Dominante Total — Uma Burocracia Monopolística

Este capítulo é crucial para a definição de Wittfogel da estrutura de poder despótico.

  • Monopólio da Liderança Social: A classe dominante da sociedade hidráulica é uma "burocracia monopolística". Ao contrário de outras sociedades estratificadas, onde há competição pela liderança social, no despotismo oriental, há um monopólio da organização burocrática. Isso significa que a burocracia exerce um poder "total".
  • Composição da Classe Dominante:
    • O Núcleo: Os manipuladores do aparato estatal.
    • Suplemento Biossocial: Parentes de sangue e afins do governante, que podem exercer "poder excessivo" de forma temporária e irracional devido à sua proximidade com o autocrata.
    • Suplemento Operacional: Pessoas que gozam de um status semi, quase ou pré-oficial. Isso inclui funcionários religiosos da religião dominante, que são estreitamente ligados ao estado e tratados como oficiais seculares. Também inclui treinadores e candidatos com diplomas para cargos, que, devido à complexidade da ideologia e da escrita, constituem um grupo especial, cuidadosamente selecionado e treinado para o serviço oficial. O sistema de exames chinês é um exemplo disso, servindo como meio de doutrinar ambiciosos plebeus e filhos de famílias de oficiais com a filosofia social da burocracia dominante e as tradições de seu estado semi-gerencial e absolutista.
  • Controle Burocrático Autocrático:
    • O Autocrata vs. seus Parentes e Oficiais: O governante despótico tenta controlar seus parentes de sangue e afins. Ele também está em constante conflito com os oficiais de alto escalão, cujos interesses podem divergir dos seus. O governante prevalece na medida em que determina a escolha de seus funcionários civis e militares e controla seus procedimentos executivos.
    • Métodos de Controle do Pessoal Burocrático: Isso inclui enfraquecer ou destruir a qualidade auto-perpetuadora de oficiais hereditários (uma "nobreza burocrática"), usando plebeus (o sistema de exames chinês permitiu a entrada de alguns, mas seu efeito social foi modesto), e eunucos. Os eunucos, embora nunca fossem um grupo grande, eram vistos como instrumentos ideais do governo despótico, servindo como agentes pessoais do governante para assegurar sua posição autocrática, especialmente no tribunal e na capital.
    • Classe Dominante de Conquista: Em dinastias de conquista, os nobres tribais da nacionalidade conquistadora formavam uma elite social que comandava os exércitos de quadros e chefiava cargos civis estratégicos, garantindo a lealdade ao governante.
  • Perigo e Competição na Burocracia: A vida burocrática sob poder total é altamente competitiva e perigosa. Um estudo estatístico de oficiais da dinastia Han na China revelou que cerca de 21% foram presos e 35% morreram de forma violenta fora do campo de batalha (assassinados, torturados, executados ou suicidados).
  • Promoção Social: A promoção social requer "aptidões 'mais'", sendo o "mais" a "servidão total e engenhosa", seja de forma ideologicamente sutil ou pragmaticamente direta.

Capítulo 9: A Ascensão e Queda da Teoria do Modo de Produção Asiático

Este capítulo detalha a trajetória intelectual do conceito de sociedade asiática, especialmente em relação ao marxismo.

  • Adoção do Conceito Asiático por Marx e Engels: Wittfogel argumenta que Marx e Engels, influenciados por pensadores como Richard Jones e John Stuart Mill, aceitaram o conceito de uma sociedade asiática ou oriental específica, particularmente em termos de seu "modo de produção asiático". Eles enfatizaram as características despóticas orientais da Rússia Czarista. Marx e Engels, apesar de algumas inconsistências, mantiveram essa visão pela maior parte de suas vidas adultas. Engels chegou a sugerir que a execução de "funções socio-administrativas" importantes poderia levar à formação de uma "classe dominante".
  • A "Mutilação" de Lenin: Wittfogel acusa Lenin de distorcer as visões de Marx e Engels sobre o despotismo oriental, particularmente ao ignorar as funções gerenciais do estado hidráulico. Lenin, em suas obras como "O Estado e a Revolução" (1917) e em uma palestra de 1919, evitou discutir o "estado funcional despótico" em geral e o despotismo oriental na Rússia em particular, focando apenas no estado baseado na propriedade privada (antigo, feudal, capitalista). Ele promoveu uma visão unilinear da história, na qual a "sociedade escravista" era uma fase praticamente universal, levando sequencialmente à sociedade servil, ao capitalismo e ao socialismo. Essa distorção foi, em parte, uma resposta às críticas anarquistas (como Bakunin), que alertavam que o estado socialista marxista poderia se tornar despótico e levar à escravidão.
  • A Supressão Stalinista: O ápice da supressão do conceito asiático ocorreu sob Stalin. Ele "editou" Marx para remover a referência ao "modo de produção asiático" de sua famosa "Prefácio à Crítica da Economia Política". Em 1931, na "Discussão de Leningrado", o conceito foi declarado "politicamente inadmissível", com a admissão cínica de que as objeções eram de interesse político, não científico. A "derrota da notória teoria do 'modo de produção asiático'" tornou-se uma realização oficial soviética. Isso levou a um "blecaute ideológico" em grande parte do mundo comunista.
  • Disseminação no Mundo Anglo-Saxão (e seu Fim): Apesar da supressão soviética, a interpretação asiático-hidráulica do Oriente foi disseminada no mundo anglo-saxão por alguns marxistas (como R. P. Dutt e Gordon Childe) e influenciou até estudiosos não marxistas (como Owen Lattimore) durante os anos 1930. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, essa disseminação diminuiu, e a teoria foi abandonada até mesmo por aqueles que a haviam promovido.

Capítulo 10: Conclusão (implícito)

Embora um capítulo de conclusão completo não esteja presente nos excertos, os pontos finais fornecidos e o índice permitem inferir os argumentos finais de Wittfogel.

  • Padrão Multilinear de Desenvolvimento Social: Wittfogel defende que o reconhecimento da peculiaridade da sociedade hidráulica é um obstáculo decisivo para qualquer esquema de desenvolvimento unilinear. Ele é crucial para a formulação de um padrão multilinear de evolução social, que reconhece diferentes caminhos históricos.
  • Tipos Sociais e Elementos Culturais: Ele distingue entre elementos essenciais, específicos e não específicos da sociedade. Elementos não específicos (como a escrita chinesa, o confucionismo ou a arquitetura) podem fluir entre civilizações sem implicar uma estrutura social semelhante. Ele exemplifica isso com o Japão, que adotou muitos elementos culturais chineses, mas evitou seus padrões burocráticos de poder, propriedade e classe.
  • Relevância para o Presente: A teoria da sociedade hidráulica é útil para avaliar o presente e o futuro, particularmente em relação ao totalitarismo comunista moderno. Wittfogel vê o comunismo como uma nova forma de "estado-aparato industrial", que é uma variante do despotismo total. Ele argumenta que o poder gerencial total dos estados comunistas é uma intensificação das características despóticas encontradas nas sociedades hidráulicas.
  • Advertência e Responsabilidade: Wittfogel adverte contra a simplificação ou a idealização do totalitarismo comunista como uma forma "progressista". Ele conclui que os líderes intelectuais e políticos da Ásia não comunista, especialmente aqueles que se professam democratas e admiram Marx, devem enfrentar a herança despótica do mundo oriental de forma clara, à luz da experiência russa de 1917, para considerar a questão de uma "restauração asiática" não apenas na Rússia, mas também na Ásia contemporânea. Ele sugere que, embora o Ocidente tenha conseguido evitar sistemas totalitários de poder e ideologia integrados, não deve subestimar a inteligência ou a força de seus oponentes, que constroem instituições e ideologias integradas.

Em suma, Wittfogel, através de "Oriental Despotism", propõe uma teoria original e provocadora da civilização, baseada na gestão da água em grande escala como força motriz para a centralização do poder e a formação de um estado despótico

Resumo do livro "Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power" de Karl Wittfogel
Karl Wittfogel
Ele usa esse modelo para traçar paralelos históricos e conceituais entre as sociedades antigas do Oriente e as formas modernas. Sua obra é um alerta contra o poder irrestrito e a reificação do estado, defendendo a importância de reconhecer as diferenças institucionais fundamentais entre as sociedades e rejeitando visões unilineares do desenvolvimento histórico.


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