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Resumo do livro "História da Antropologia" de Thomas Hylland Eriksen e Finn Sivert Nielsen (2019)

A obra "História da Antropologia" de Thomas Hylland Eriksen e Finn Sivert Nielsen propõe-se a oferecer uma visão objetiva dos avanços paralelos, convergentes e interdependentes das principais tradições da antropologia social e cultural, sem competir com a literatura acadêmica especializada já existente. O livro busca compreender a multiforme história da disciplina sem fazer dela uma reinterpretação radical, sendo a primeira obra a abranger toda a história da antropologia social e cultural em um único volume. Os autores organizam a narrativa em ordem cronológica, cobrindo desde as "proto-antropologias" até as tendências do século XXI. A história da antropologia, para eles, não é uma narrativa linear de progresso, mas um campo que acumula conhecimento e compreensão, reagindo a mudanças externas, embora continue a levantar as mesmas questões fundamentais ao longo do tempo.

Capítulo 1: Inícios

Este capítulo explora as origens da antropologia, destacando a ambiguidade em sua datação e as "proto-antropologias" que precederam a disciplina formal.

Argumentos Principais e Desenvolvimento:

  • A Ambiguidade das Origens: A questão de quando a antropologia começou depende da definição de "antropólogo". Enquanto a curiosidade humana sobre os "outros" é antiga, como uma disciplina científica, as origões são debatidas: alguns apontam para o Iluminismo europeu (século XVIII), outros para o surgimento da ciência na década de 1850, e outros ainda para o período pós-Primeira Guerra Mundial.
  • A Contribuição Grega Antiga: A antropologia, como ciência do homem, teve origem no "Ocidente", especialmente na França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha (até a Segunda Guerra Mundial). Frequentemente, suas raízes são atribuídas aos antigos gregos.
    • Heródoto de Halicarnasso (c. 484-425 a.C.): É lembrado por suas narrativas de viagem detalhadas sobre diversos povos, abordando a questão fundamental de como nos relacionar com "os outros" – se são basicamente como nós ou fundamentalmente diferentes. Ele oscilava entre o preconceito etnocêntrico e o reconhecimento de valores distintos baseados em diferentes circunstâncias. Heródoto descrevia língua, vestuário, instituições políticas e jurídicas, ocupações e economia, sendo muitas vezes a única fonte escrita sobre povos antigos.
    • Paradoxo Universalismo vs. Relativismo: Muitos gregos antigos, como os sofistas (primeiros relativistas filosóficos europeus), debateram a identificação de semelhanças comuns (universalismo) versus a ênfase na singularidade de cada sociedade (relativismo). Sócrates, por exemplo, debatia com os sofistas sobre a razão universal versus a verdade que varia com a experiência e a cultura. A história da antropologia tem oscilado entre essas duas posições.
    • Aristóteles (384-322 a.C.): Em sua antropologia filosófica, ele destacou a razão, sabedoria e moralidade como atributos unicamente humanos, e a natureza fundamentalmente social dos seres humanos. Seu universalismo, buscando semelhanças entre grupos, continua proeminente na antropologia.
  • Depois da Antiguidade: O interesse pelo "outro" persistiu no período helenístico e romano, como evidenciado pelo geógrafo Estrabão. No entanto, a desintegração do Império Romano e a ascensão do cristianismo (que unificou o continente através da Igreja e redes de saber) levaram ao desaparecimento da cultura urbana clássica e ao surgimento de culturas locais europeias.
    • Ibn Khaldun (1332-1406): Historiador e filósofo do norte da África, escreveu uma história dos árabes e berberes com uma introdução crítica sobre suas fontes. Ele desenvolveu uma das primeiras teorias sociais não-religiosas e antecipou ideias de Émile Durkheim sobre solidariedade social, destacando a importância do parentesco e da religião.
    • Precursores Medievais Tardios e Renascimento: Escritos como o de Marco Polo e The Voyage and Travels of Sir John Mandeville estimularam o interesse europeu por povos estrangeiros. O advento das economias mercantilistas e o Renascimento impulsionaram viagens exploratórias marítimas, as "grandes descobertas" (África, Ásia, América). A imprensa, inventada em 1448, popularizou essas narrativas.
  • O Impacto das Conquistas Europeias: As "grandes descobertas" foram cruciais para as mudanças na Europa e no mundo, e para a antropologia. Narrativas de viagem, como as de Américo Vespúcio, eram muitas vezes imprecisas e etnocêntricas, retratando nativos americanos como reflexos distorcidos dos europeus para justificar visões sobre sua própria sociedade. No entanto, outros, como Jean de Léry, produziram relatos mais confiáveis. O legado dessas descrições moralmente ambíguas persiste na antropologia contemporânea, com acusações de distorção.
    • Revolução Intelectual: A conquista da América e a descoberta de um continente não mencionado na Bíblia estimularam a secularização do pensamento europeu, a libertação da ciência da Igreja, e a relativização da moralidade e da individualidade. Levou à questão de se os nativos representavam um estágio anterior da humanidade, dando origem aos conceitos de progresso e desenvolvimento, e à ideia de que os seres humanos moldam seu próprio destino.
    • Michel de Montaigne (1533-1592): Em seus Ensaios (1580), ele demonstrou um relativismo cultural, cunhando o termo "o bom selvagem" (le bon sauvage), que influenciaria Rousseau.
    • Filósofos Pós-Descartes: Filósofos como Descartes, Locke, e Hobbes desenvolveram suas "antropologias filosóficas" baseadas em conhecimentos sobre povos não-europeus, usando "os outros" como munição retórica para debates internos sobre a Europa.
      • Empiristas (ex: John Locke, 1632-1704): A mente humana como tabula rasa (tábua rasa), ideias e valores resultam da experiência. Combinava universalismo (nascemos iguais) com relativismo (experiências nos tornam diferentes). Locke defendia a "lei natural" (jus naturel) e os direitos humanos intrínsecos baseados nas necessidades biológicas do indivíduo, não em Deus.
      • Racionalistas (ex: René Descartes, 1596-1650): Duvidava dos sentidos, afirmando que as imagens do mundo são filtradas por ideias preexistentes. Sua máxima "Cogito, ergo sum" (Penso, logo existo) estabeleceu a certeza fundamental da existência baseada no pensamento.
      • Tanto empiristas quanto racionalistas, embora com epistemologias opostas, situaram o indivíduo no centro da investigação e foram cruciais para o surgimento de uma ciência secular e da nova ordem burguesa.
  • Por que isso ainda não é Antropologia?: Apesar dos avanços, a antropologia como ciência só surgiu posteriormente. As justificativas são:
    1. O trabalho anterior era de dois gêneros: escritos de viagem ou filosofia social. A antropologia só nasce quando dados e teoria se integram.
    2. Escritores anteriores eram influenciados por sua época, mas a antropologia moderna faz sentido apenas em um contexto moderno. É produto de amplas mudanças na cultura e sociedade europeias que levaram ao capitalismo, individualismo, ciência secularizada, nacionalismo e reflexividade cultural extrema.
  • Novas Ideias e o Iluminismo: A partir do século XV, surgiram novas ideias que formaram a base das ciências sociais.
    • O encontro com "o outro" estimulou a visão da sociedade como passível de mudanças e crescimento (de comunidades simples a nações complexas).
    • A ideia do indivíduo autônomo foi um pré-requisito para a ideia de sociedade como associação de indivíduos.
    • O Iluminismo (século XVIII), a "idade da razão", buscou uma ordem social racional, justa e transparente, centrada no indivíduo livre. Denunciou crenças religiosas tradicionais e viu o progresso confirmado pela tecnologia. Culminou na Revolução Francesa.
    • Giambattista Vico (1668-1744): Sua La scienza nuova (1725) propôs uma estrutura universal de desenvolvimento social em quatro fases (condição bestial, Idade dos Deuses, Idade dos Heróis, Idade do Homem), que serviria de modelo para evolucionistas futuros, mas com um elemento cíclico de degeneração.
    • Barão de Montesquieu (1689-1755): De l'esprit des lois (1748) foi um estudo comparativo de sistemas legislativos, vendo o sistema legal como parte de um sistema social mais amplo e interconectado (protofuncionalismo). Suas Lettres persanes (1722) usaram o "estranhamento" cultural para criticar a França, revelando uma compreensão da "cegueira doméstica" (nossa incapacidade de ver nossa própria cultura objetivamente).
    • Os Enciclopedistas (Diderot, d'Alembert): Visavam coletar, classificar e sistematizar o conhecimento para promover razão, progresso, ciência e tecnologia (Encyclopédie, 1751-1772). Incluía descrições detalhadas de costumes culturais, indicando o estudo da vida cotidiana de pessoas comuns.
    • Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): Afirmava que o desenvolvimento era degenerativo, causado pela sociedade, que esmagava a alma livre do homem com a desigualdade social (Du contrat social). Idealizava os "nobres selvagens" como modelos de sociedades livres e sem Estado, reavaliando-as e representando um passo significativo para o relativismo cultural.
  • Romantismo: Em contraste com o Iluminismo, o Romantismo (Alemanha, século XVIII final) deslocou a atenção do indivíduo para o grupo, da razão para a emoção, e do universalismo para o particularismo (construção da nação).
    • Johann Gottfried von Herder (1744-1803): Atacou o universalismo francês, proclamando a primazia das emoções e da linguagem. Definiu a sociedade como uma comunidade mítica consolidada, afirmando que cada Volk (povo) tem seus próprios valores, costumes, língua e "espírito" (Volksgeist). Sua crítica ao universalismo antecipou a crítica à antropologia como agente do imperialismo cultural.
    • Immanuel Kant (1724-1804): Sintetizou empirismo e racionalismo, mostrando que o conhecimento é um processo criativo que envolve tanto impressões sensoriais quanto faculdades da mente. Conhecer o mundo é criar um mundo acessível ao conhecimento, e o homem tem acesso ao mundo tal como ele se apresenta para si (Ding für Mich). Essa ideia de que o antropólogo contribui para a criação do conhecimento através do trabalho de campo continua relevante.
    • Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): Expandiu Kant, afirmando que o indivíduo também é resultado do processo de conhecimento. Introduziu o coletivismo metodológico, onde a sociedade é mais fundamental que o indivíduo. Seu conceito de Weltgeist (espírito do mundo) evoluindo independentemente dos indivíduos anteviu uma humanidade global. A "construção social da realidade" é a ideia mais importante que a ciência social herdou de Kant e Hegel.
  • A Antropologia Alemã: A institucionalização da antropologia começou em áreas de língua alemã, com um foco na Volkskunde (estudo de povos locais) em vez de Völkerkunde (estudo de povos remotos).

Capítulo 2: Vitorianos, Alemães e um Francês

Este capítulo aborda o desenvolvimento da antropologia no século XIX, destacando as figuras-chave, as escolas de pensamento e as distinções entre as abordagens britânica, americana e continental.

Argumentos Principais e Desenvolvimento:

  • Contexto do Século XIX: A expansão europeia (trem, navio a vapor, migrações, colonialismo) e a ascensão do racismo como ideologia organizada influenciaram o cenário. O trabalho de Charles Darwin (Origem das Espécies, 1859) e Herbert Spencer (Darwinismo Social) foi fundamental.
  • Antropologia e Sociologia:
    • Os principais sociólogos do século XIX (Marx, Comte, Spencer, Tönnies, Durkheim, Simmel, Weber) eram predominantemente alemães ou franceses. Eles focavam na dinâmica interna da sociedade ocidental industrial, buscando compreender a sociedade como uma realidade autônoma e defendendo a unidade psíquica da humanidade.
    • Os antropólogos mais proeminentes (Morgan, Tylor) estavam na Inglaterra e nos EUA, dada a facilidade de acesso aos "outros". A antropologia evolucionista do século XIX baseou-se em ideias de desenvolvimento do século XVIII e na experiência colonial. Todos os principais antropólogos da época apoiavam a unidade psíquica da humanidade (seres humanos nascem com o mesmo potencial, diferenças herdadas são negligenciáveis).
  • Lewis Henry Morgan (1818-1881):
    • Antropologia Urgente: Preocupado com a destruição da cultura nativa americana, Morgan viu como crucial documentar a vida tradicional antes que fosse tarde demais.
    • Estudos de Parentesco: Seu interesse por parentesco surgiu do contato com os iroqueses. Ele descobriu semelhanças e diferenças entre sistemas de parentesco, criando a primeira tipologia de sistemas de parentesco e distinguindo entre parentesco classificatório (mesmo termo para parentes lineares e colaterais, ex: iroqueses) e descritivo (diferencia parentes lineares e laterais, ex: o nosso). Sua obra Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family (1870) estabeleceu o parentesco como um tema antropológico fundamental.
    • Evolução Social: Para Morgan, o parentesco era uma porta para o estudo da evolução social, acreditando que a terminologia do parentesco revelava estágios anteriores. Em Ancient Society (1877), ele propôs três grandes estágios de evolução cultural: selvageria, barbárie e civilização, com subestágios baseados principalmente em critérios tecnológicos (caçadores-coletores, agricultura, formação do Estado/urbanização). Sua síntese foi considerada especulativa e imprecisa.
  • Karl Marx (1818-1883):
    • Materialismo Histórico: Sua obra principal, Das Kapital (1867, 1885, 1896), foca na sociedade capitalista e é uma contribuição duradoura à teoria social. Marx buscou conciliar o idealismo da filosofia alemã (Hegel) com uma cosmovisão materialista, afirmando que o movimento da história se dava no nível material.
    • Infraestrutura e Superestrutura: A sociedade é composta por infraestrutura (condições de existência, recursos materiais, divisão do trabalho) e superestrutura (sistemas ideacionais como religião, lei, ideologia). O conflito de classes surge da contradição entre as relações de produção (organização do trabalho e propriedade) e as forças de produção (tecnologia, terra), levando a mudanças de sistemas (escravidão, feudalismo, capitalismo, socialismo, comunismo).
    • "Falsa Consciência": Marx postulava que a classe trabalhadora estava apenas parcialmente consciente de sua exploração, pois as relações de poder eram ocultadas por ideologias superestruturais (lei, religião, parentesco) que geravam uma "falsa consciência".
    • Questões para a Antropologia: O modelo marxista levanta questões sobre sua aplicabilidade a contextos não-ocidentais, a relação entre parentesco e infraestrutura/superestrutura, e a distinção entre o material e o espiritual. A capacidade de Marx de levantar esses questionamentos é parte de sua atração contínua.
  • Adolf Bastian (1826-1905):
    • Antropólogo alemão prolífico, viajante incansável. Fundou o Museu de Etnologia de Berlim.
    • Crítica ao Evolucionismo: Foi um crítico vigoroso e incisivo do evolucionismo simplista. Sua visão era que todas as culturas têm uma origem comum, ramificando-se em várias direções, uma visão que mais tarde seria desenvolvida por Boas.
    • Elementärgedanken (Ideias Elementares): Afirmou que todos os seres humanos compartilham certos padrões elementares de pensamento, antecipando o estruturalismo e a psicologia junguiana.
    • Ele marcou a presença do relativismo cultural na antropologia do século XIX, ausente do pensamento iluminista e da antropologia anglo-americana da época.
  • Henry Maine (1822-1888):
    • Ancient Law (1861) pesquisou a história cultural baseada em fontes escritas. Distinguiu entre sociedades tradicionais baseadas em status (direitos por relações pessoais, parentesco, posição herdada) e sociedades modernas baseadas em contrato (princípios formais, escritos). Sua distinção de "tipos ideais" continua em uso.
  • Edward Burnett Tylor (1832-1917):
    • Primeiro professor britânico de antropologia em Oxford (1896).
    • Primitive Culture (1871) propôs um esquema evolucionista (como Morgan) e acreditava na primazia das condições materiais.
    • "Sobreviventes Culturais": Desenvolveu uma teoria de traços culturais que haviam perdido suas funções originais, mas sobreviveram, sendo cruciais para a reconstrução da evolução humana. Defendia um método comparativo traço a traço.
    • Definição de Cultura: Sua contribuição mais importante é a definição de cultura, na primeira página de Primitive Culture: "Cultura, ou civilização, tomada em seu sentido amplo, etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.". Essa definição via a cultura como um termo geral que perpassa estágios evolutivos, unindo a humanidade (unidade psíquica). No entanto, ao equipará-la à civilização, a cultura tornou-se implicitamente uma questão de grau, contradizendo a noção herderiana de culturas autônomas e limitadas.
    • Metodologia: A maioria dos antropólogos da época (incluindo Tylor) coletava dados por correspondência com administradores coloniais, levando a "história conjectural".
  • James George Frazer (1854-1941):
    • Último grande evolucionista vitoriano, aluno de Tylor.
    • The Golden Bough (1890): extensa investigação comparativa de mito, religião e "crenças exóticas", com um modelo de evolução cultural em três etapas: estágio "mágico", "religioso" e "científico". Apesar de considerar ritos mágicos irracionais, seu interesse era identificar padrões universais no pensamento mítico.
  • A Expedição a Torres (1898):
    • Organizada pela Universidade de Cambridge para coletar dados detalhados sobre a população das Ilhas do Estreito de Torres. Incluiu Alfred C. Haddon, William H.R. Rivers e Charles G. Seligman, que, embora especializados em outras disciplinas, são considerados os primeiros "verdadeiros" pesquisadores de campo. Marcou o nascimento da antropologia social britânica. A expedição foi um esforço coletivo e contribuiu para deslocar o foco da antropologia inglesa do Pacífico para a África.
  • Difusionismo:
    • Estudava a distribuição geográfica e migração de traços culturais, postulando que as culturas eram mosaicos de traços de várias origens. Contrastava com o evolucionismo ao ver culturas como menos coerentes e enfatizar que "o passado" não era um movimento unilinear, mas uma narrativa fragmentada de encontros culturais.
    • Embora a ideia de difusão não fosse nova, o difusionismo antropológico se destacou por seu esforço comparativo sistemático e ênfase no conhecimento empírico detalhado.
    • Foi uma especialização germânica (Berlim, Viena), com figuras como Friedrich Ratzel, Fritz Graebner, Leo Frobenius e Wilhelm Schmidt, que enfatizavam a singularidade da herança cultural de cada povo e a evolução não-linear. Desenvolveram classificações de "círculos culturais" (Kulturkreise) e rastrearam sua disseminação.
    • Teve pouca influência direta na antropologia inglesa e francesa (exceto Rivers), mas foi importante para os antropólogos do Leste Europeu e russos (Miklukho-Maklai, Jochelson, Bogoraz, Shtemberg), que realizaram trabalho de campo prolongado.
    • O difusionismo, segundo os autores, persiste no Ocidente em estudos do imperialismo (Marx, Lênin, dependência, sistema-mundo, globalização).
  • A Nova Sociologia e Émile Durkheim (1858-1917):
    • Antropólogos britânicos e americanos começaram a se voltar para a sociologia continental no início do século XX. Durkheim foi o sociólogo clássico mais importante para a antropologia.
    • Interesses Antropológicos: Durkheim se interessava por temas antropológicos, como as origens sociais dos sistemas de conhecimento em Classification primitive (1900, com Mauss), um estudo baseado em dados etnográficos da Austrália que estabelece uma ligação entre classificação e estrutura social.
    • Abordagem Sociológica: Diferente de difusionistas e evolucionistas, Durkheim não se preocupava com origens, mas com explicações sincrônicas (presente, como as coisas funcionam agora). Acreditava que as sociedades eram sistemas lógicos e integrados, onde as partes dependem umas das outras para manter o todo (analogia com organismo social).
    • Tipos Sociais: Assim como Tönnies e Maine, Durkheim distinguia tipos sociais dicotômicos (tradicionais e modernas), sem a noção de estágios evolutivos. Sociedades "primitivas" eram vistas como organismos sociais que mereciam ser estudados por seu valor intrínseco.
    • Foco na Sociedade: Ele se interessava pela sociedade, não pela cultura; por organizações e instituições, não por símbolos e mitos (diferente de Bastian e da escola Völkerkunde).
    • De la division du travail social (1893): Analisa a diferença entre organizações sociais simples e complexas.
      • Solidariedade Mecânica: Sociedades simples, baseada na semelhança entre indivíduos que realizam as mesmas tarefas e se veem como iguais.
      • Solidariedade Orgânica: Sociedades complexas, mantida pela percepção de que os indivíduos são diferentes, com papéis complementares.
    • Les Formes élémentaires de la vie religieuse (1915): Sua obra mais importante, busca o sentido da solidariedade em si. A solidariedade surge das representações coletivas (imagens simbólicas ou modelos de vida social comuns a um grupo). Essas representações adquirem um caráter objetivo, supraindividual, constituindo uma realidade "socialmente construída" tão real quanto o mundo material. A religião é um objeto de pesquisa crucial porque é onde o apego emocional a essas representações coletivas é estabelecido e fortalecido, principalmente no ritual. O ritual intensifica a experiência até uma união quase mística, e sua lembrança na vida diária reforça a compreensão do mundo.
    • Impacto na Antropologia: Durkheim ofereceu uma ferramenta analítica para integrar interesses em religião, sistemas legais e parentesco, compreendendo o "exótico" como um sistema integrado de representações coletivas que criam solidariedade. Ele é frequentemente descrito como o fundador do estrutural-funcionalismo britânico (desenvolvido por Radcliffe-Brown), pois acreditava que fenômenos sociais e representações coletivas tinham existência objetiva e que indivíduos eram produtos da sociedade.
  • Max Weber (1864-1920):
    • Contraste com Durkheim: Encarava uma posição oposta a Durkheim em vários aspectos, centrando-se no indivíduo.
    • Die protestantische Ethik und der "Geist" der Kapitalismus (1904-1905): Analisa as raízes da modernidade europeia, argumentando que a ética protestante (calvinismo) forneceu uma ideologia alinhada com a ética capitalista, impulsionando a acumulação de capital através do trabalho árduo e da frugalidade.
    • Hermenêutica e Verstehen: Inspirado pela hermenêutica ("ciência da compreensão e interpretação do ponto de vista de uma cultura"), Weber pesquisou as motivações por trás das ações, buscando entender como um modo de agir fazia sentido para os indivíduos. Sua sociologia é associada ao termo alemão Verstehen (compreensão), que implica focar no que o mundo significa para os indivíduos.
    • Individualismo Metodológico: É um dos primeiros representantes do individualismo metodológico, interessado nas instâncias particulares e nas razões dos indivíduos para fazerem as coisas, em vez do sistema ou do todo.
    • Poder Legítimo: Diferente dos difusionistas, Weber se opunha a esquemas abstratos. Definiu poder como a capacidade de levar alguém a fazer algo que, de outra forma, não faria. Descreveu três tipos ideais de poder legítimo: autoridade tradicional (legitimada por ritual/parentesco), autoridade burocrática (legitimada por administração formalizada) e autoridade carismática (poder do profeta/revolucionário de "dominar as massas"). O tipo carismático, em particular, demonstra a primazia do indivíduo e é imprevisível.
    • Conflito e Mudança: Weber via a competição e o conflito como fontes potenciais de mudança construtiva (diferente de Durkheim, que via a mudança como decadência). Para Weber, os conflitos eram provocados por indivíduos, enquanto para Marx e Durkheim, eram processos impessoais.
    • Legado do Século XIX: A herança do século XIX é rica, com conceitos como a distinção de Maine entre contrato e status, a definição de cultura de Tylor e as formas culturais incipientes de Bastian que ainda são "sobreviventes" na antropologia. No entanto, a antropologia social e cultural moderna só se consolidaria com os avanços do século XX.

Capítulo 3: Quatro Pais Fundadores

Este capítulo se concentra nos quatro intelectuais que, por consenso, são considerados os pais fundadores da antropologia do século XX, responsáveis por uma renovação quase total das tradições americana, britânica e francesa.

Argumentos Principais e Desenvolvimento:

  • O Contexto da Nova Antropologia: A disciplina da antropologia como a conhecemos hoje se desenvolveu em torno da Primeira Guerra Mundial, um período de turbulência e desilusão que levou a uma transformação para uma ciência social moderna. A antropologia do século XX alinhava-se mais com o pensamento liberal do século XVIII do que com o conformismo evolucionista do século XIX.
  • Os Quatro Fundadores: Franz Boas (EUA), Bronislaw Malinowski (Inglaterra), A.R. Radcliffe-Brown (Inglaterra) e Marcel Mauss (França) são as figuras centrais. As antropologias alemã e russa se desenvolveram lentamente no século XX devido a eventos nefastos (queima de livros de Boas em Berlim, ethnógrafos russos no Gulag, colaboração com nazistas). Contudo, a tradição alemã subsistiu através de Boas (alemão) e Malinowski (polonês), que a levaram para os EUA e Inglaterra.
  • Franz Boas (1858-1942) e o Particularismo Histórico:
    • Professor de Antropologia na Universidade de Colúmbia, Nova York (1899-1942), mentor de gerações de antropólogos americanos.
    • Influência Alemã: Cético em relação ao evolucionismo e simpatizante do difusionismo, influenciado por Bastian.
    • Ênfase Empírica: Acreditava que o desenvolvimento da teoria geral dependia de uma base empírica sólida, ou seja, coletar e sistematizar dados detalhados sobre culturas particulares antes de generalizar.
    • Antropologia Cultural vs. Antropologia Social: Nos EUA, a disciplina tornou-se antropologia cultural, mantendo a ampla definição de cultura de Tylor. A cultura englobava tudo que os humanos criaram (material, social, simbólico). Boas defendia uma "abordagem de quatro campos": linguística, antropologia física, arqueologia e antropologia cultural, com especialização posterior. Na Inglaterra, predominou a antropologia social, mais sociológica.
    • Trabalho de Campo: Realizou pesquisas com inuítes e kwakiutls, frequentemente colaborando com membros proficientes das tribos.
    • Particularismo Histórico: Em substituição ao evolucionismo, propôs o princípio do particularismo histórico, defendendo que cada cultura possui seus próprios valores e história única, que podem ser reconstruídos. Valorizava a pluralidade cultural e era cético a intervenções na diversidade.
    • Crítica ao Racismo e Relativismo Cultural: Boas foi um crítico incansável do racismo, afirmando que a cultura é sui generis (de sua própria fonte) e que diferenças inatas não explicam a variação cultural. Ele cunhou o termo "relativismo cultural", que para ele era tanto um imperativo metodológico quanto moral.
    • Legado: Não deixou uma grande teoria unificada, mas sua desconfiança de grandes generalizações e seu foco na instância particular (individualismo metodológico) influenciaram a antropologia americana por décadas.
  • Bronislaw Malinowski (1884-1942) e os Nativos das Ilhas Trobriand:
    • Polonês de formação diversa (física, filosofia, psicologia, economia), influenciado por Wilhelm Wundt (visão holística e sincrônica da sociedade). Estudou com Seligman na LSE.
    • Argonauts of the Western Pacific (1922): Sua obra mais famosa, uma análise detalhada e fluente do sistema de comércio kula nas ilhas Melanésia. Descreveu a inter-relação do kula com outras instituições trobriandesas. Retratou os trobriandeses de forma naturalista, não espetacular, mas "simplesmente diferentes".
    • Observação Participante: Malinowski "inventou" um método específico de trabalho de campo que ele chamou de observação participante. A ideia era viver com as pessoas estudadas, participar de suas vidas e atividades, e usar o idioma local como ferramenta. Ele morou sozinho em uma cabana em uma aldeia trobriandesa por meses, buscando registrar todos os fatos, mesmo os insignificantes, e participar do fluxo da vida diária.
    • Funcionalismo: Sua posição teórica era eclética, mas ele denominou seu programa de funcionalismo. Para Malinowski, todas as práticas e instituições sociais eram funcionais no sentido de se ajustarem a um todo operante e ajudarem a mantê-lo. No entanto, o objetivo último do sistema eram os indivíduos, e suas necessidades (biológicas) eram o motor da estabilidade social e da mudança. Essa era uma forma de individualismo metodológico.
    • Anti-Historicismo: Diferentemente de Boas, Malinowski era relutante em se envolver com qualquer forma de reconstrução histórica. Ele e Radcliffe-Brown empreenderam uma campanha bem-sucedida contra o evolucionismo e o historicismo na antropologia britânica.
    • Tensão com Estrutural-Funcionalismo: Embora ambos fossem "funcionalistas", Malinowski via o indivíduo como fundamento da sociedade, enquanto os estrutural-funcionalistas durkheimianos viam o indivíduo como um epifenômeno da sociedade. Essa tensão entre agência e estrutura é fundamental na disciplina.
  • A.R. Radcliffe-Brown (1881-1955):
    • Influenciado por Durkheim, sua monografia Andaman Islanders (1922) foi uma demonstração da sociologia durkheimiana aplicada à etnografia.
    • Construtor Institucional: Passou longos períodos desenvolvendo e aperfeiçoando centros antropológicos em Cidade do Cabo, Sydney e Chicago, antes de retornar a Oxford em 1937.
    • Estrutural-Funcionalismo: Seguia Durkheim ao considerar o indivíduo como produto da sociedade. Pedia a seus alunos que descobrissem princípios estruturais abstratos e mecanismos de integração social. Seu objetivo era transformar a antropologia em uma ciência "real", onde a sociedade se mantinha coesa por uma estrutura de regras jurídicas, estatutos sociais e normas morais que existiam independentemente dos atores individuais.
    • Problema da Tautologia: O funcionalismo de Radcliffe-Brown foi criticado por uma lógica circular, onde as instituições existiam porque mantinham o todo social, ou seja, sua função era também sua causa.
    • Parentesco como Estrutura: Consolidou a importância do parentesco como a "chave" para a organização social em sociedades de pequena escala, interpretando-o como um sistema "jurídico" de normas e regras. O parentesco era visto como o motor de uma entidade auto-sustentável e abstrata chamada estrutura social (termo de Spencer).
    • Crítica à História Conjectural: Criticava severamente a "história conjectural" dos evolucionistas e as reconstruções fantasiosas dos difusionistas, argumentando que os arranjos contemporâneos existiam porque eram funcionais no presente.
  • Marcel Mauss (1872-1950):
    • Sobrinho e sucessor intelectual de Durkheim, líder do círculo L'Année Sociologique. Era um erudito com vasto conhecimento da história cultural mundial e etnografia.
    • Concepção Holística da Sociedade: Assim como Durkheim, Mauss tinha uma concepção holística da sociedade como um "organismo social".
    • Três Níveis da Antropologia: Dividiu o estudo da antropologia em: etnografia (estudo detalhado de costumes), etnologia (estudo empírico comparativo regional) e antropologia (esforço teórico-filosófico de generalização sobre a humanidade e a sociedade). Não fez trabalho de campo, mas enfatizou a importância da metodologia para os alunos.
    • Estudo de Culturas não-europeias e "Arcaicas": Buscou desenvolver uma sociologia comparativa baseada em descrições etnográficas detalhadas, semelhante a Malinowski, Radcliffe-Brown e Boas, mas seu objetivo explícito era classificar sociedades e descobrir características estruturais comuns. Diferentemente dos britânicos, não hesitava em usar materiais históricos.
    • Essai sur le don (The Gift, 1923-1924): Sua obra mais influente, um ensaio que argumenta que não pode haver prestação sem uma contraprestação, e a troca de presentes é um meio de estabelecer relações sociais. Essa troca é moralmente obrigatória e socialmente integradora, parecendo voluntária, mas regulada por regras rígidas. O presente possui um "poder/alma" (hau) que compromete o receptor, estabelecendo normas. O livro integra análises estruturais e focadas no ator, e é uma síntese de antropologia econômica, história cultural, análise simbólica e teoria social geral.
  • Outras Figuras Francesas:
    • Arnold van Gennep (1873-1957): Conhecido por Les Rites de Passage (1909), um estudo comparado de rituais de iniciação que dividiu em três estágios universais: separação, liminaridade e reintegração. Ele via esses rituais como expressões dramatizadas da ordem social que fortalecem a integração.
    • Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939): Em Mentalité primitive (1922), sustentou que povos iletrados pensam de modo qualitativamente diferente, de forma poética e metafórica, não lógica. Embora criticado, abriu o campo do estudo comparativo de estilos de pensamento e problemas de tradução intercultural.
  • Antropologia em 1930: Convergências e Divergências:
    • As "novas antropologias" na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos estavam estabelecidas. Apesar do pequeno número de antropólogos, as "escolas" já se formavam.
    • Consenso Central: Todos os fundadores concordavam que a antropologia deveria ser uma ciência holística, descrevendo sociedades ou culturas como todos integrados, onde traços culturais não podiam ser estudados isoladamente, mas no contexto total da sociedade presente. Essa ideia de "sociedade como sistema" produziu uma revolução teórica.
    • Diferenças Nacionais Marcantes:
      • Boas e Mauss tinham interesse no difusionismo, enquanto Radcliffe-Brown e Malinowski o consideravam "não-científico".
      • Radcliffe-Brown e Mauss focavam em sociologia comparada, enquanto Boas desconfiava do método comparativo.
      • Malinowski e Boas tinham uma herança germânica de particularismo, mas Malinowski focava nas necessidades físicas do indivíduo, e Boas na primazia da cultura.
      • Radcliffe-Brown e Mauss eram coletivistas metodológicos, investigando a "sociedade como um todo", enquanto Boas e Malinowski eram particularistas (individualistas metodológicos).
    • Personalidades e Conflitos: A popularidade de Boas levou à ausência de grandes generalizações na antropologia americana por uma geração. Radcliffe-Brown e Malinowski, embora inicialmente "companheiros de revolução", desenvolveram antagonismos, com seus alunos reproduzindo as críticas (malinowskianos criticando a abstração de Oxford, radcliffe-brownianos criticando a falta de ideias dos malinowskianos).
    • Renovação da Disciplina: Até o início dos anos 1930, a antropologia vitoriana (Tylor, Frazer, Morgan, difusionismo alemão) havia sido superada, e Marx e Weber estavam em segundo plano. A nova antropologia era vista como revigorada e estimulante.
    • Marginalidade e Crítica Cultural: A antropologia do século XX era marginal no sentido de colocar "estrangeiros desprezíveis" em igualdade com ocidentais de classe média. O método holístico de Malinowski, o relativismo cultural de Boas e a busca de Radcliffe-Brown por leis universais sugeriam que todas as sociedades/culturas tinham o mesmo valor. Antropólogos eram céticos a decisões tomadas "de cima" e frequentemente politicamente radicais. Eles eram vistos como tendo um potencial considerável para a crítica cultural e a defesa dos povos nativos. As acusações de subserviência ao colonialismo foram refutadas por estudos que mostram a indiferença mútua e o financiamento de fundações americanas.
    • Institucionalização: O período viu a consolidação de centros acadêmicos na LSE (Malinowski), Oxford (Radcliffe-Brown) e Columbia (Boas), e a Escola de Chicago.
    • Escola Cultura e Personalidade (EUA): Liderada por Ruth Benedict e Margaret Mead, alunos de Boas. Focava na relação entre fatores psicológicos (personalidade, emoções, "caráter") e condições culturais (socialização, papéis de gênero, valores). Argumentavam que emoções e cultura estão interligadas e que padrões emocionais podem ser compartilhados.
      • Ruth Benedict: Em Patterns of Culture (1934), analisou culturas como padrões macropsicológicos ou "estilos emocionais", contrastando os zunhis (apolíneos) e os kwakiutls (dionisíacos). Seu The Chrysanthemum and the Sword (1946) explorou o caráter nacional japonês.
      • Margaret Mead: Coming of Age in Samoa (1928) e Growing Up in New Guinea (1930) foram best-sellers, influenciando o relativismo cultural e o feminismo. Embora criticadas por falta de rigor científico, foram pioneiras na antropologia psicológica e no estudo da socialização.
      • Ralph Linton e Abraham Kardiner: Desenvolveram uma forma de antropologia psicológica, sugerindo que práticas de socialização geram problemas de personalidade que se expressam na organização social.
    • História Cultural (EUA): Liderada por Alfred Kroeber (aluno de Boas) e Robert Lowie (colega de Kroeber) em Berkeley. Kroeber coletou vasta quantidade de dados sobre indígenas norte-americanos (Handbook of the Indians of California, 1925). Ele via as culturas como "superorgânicas", sistemas integrados que eram mais do que biológicos e tinham sua própria dinâmica autônoma, independentemente dos indivíduos (coletivismo metodológico extremo).
    • Etnolinguística (EUA): Edward Sapir, aluno de Boas, é considerado o pai da etnolinguística moderna. Com Benjamin Lee Whorf, desenvolveu a Hipótese Sapir-Whorf, que postula que as diferenças na sintaxe, gramática e vocabulário das línguas implicam distinções profundas no modo como seus usuários percebem o mundo. Embora a hipótese tenha recebido críticas, a língua claramente influencia o pensamento.
    • Escola de Chicago (EUA): Famosa por pesquisas sobre sociedades camponesas (América Latina, Europa Oriental, Índia) e antropologia urbana. Abordaram etnicidade, urbanização, migração, e desenvolveram uma microssociologia peculiar conhecida como interacionismo simbólico (Erving Goffman, Raymond Birdwhistell).
    • "Ciência do Parentesco" (Grã-Bretanha): O ponto alto do estrutural-funcionalismo britânico, com figuras como Meyer Fortes (aluno de Malinowski, depois defensor de Radcliffe-Brown) e E.E. Evans-Pritchard. Focavam no parentesco como princípio organizador fundamental.
      • Meyer Fortes: Trabalhou extensamente com parentesco em Gana (axântis e tallensi). Sua obra The Dynamics of Clanship among the Tallensi (1945) é um marco do estrutural-funcionalismo, que via o parentesco como a "cola" da sociedade primitiva.
      • E.E. Evans-Pritchard: Sua obra Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande (1937) analisou as crenças de feitiçaria como um mecanismo de integração social e uma tentativa corajosa de compreender um mundo de pensamento estranho. The Nuer (1940), coeditado com Fortes (African Political Systems), estudou a organização política de um povo pastoril patrilinear, introduzindo o princípio da organização segmentária. Esses estudos foram cruciais para transferir o foco da antropologia social britânica do Pacífico para a África.
    • Último Baluarte do Funcionalismo: Oxford se tornou um centro radcliffe-browniano. Raymond Firth (aluno de Malinowski) assegurou a continuidade do programa malinowskiano na LSE. Em sua obra Elements of Social Organisation (1951), Firth propôs a distinção entre estrutura social (arranjos estáveis) e organização social (fluxo real da vida social, com escolhas e estratégias individuais). Essa distinção forneceu mais espaço para improvisação e criatividade do que o estrutural-funcionalismo rígido.
    • Deslocamento para Mudança e Indivíduo: A Escola de Manchester (Gluckman e alunos) e os "malinowskianos radicais" em Cambridge (Firth, Barth, Leach) abordaram a mudança social. Eles mostraram que a mudança era imprevisível e resultava de relações individuais.
      • Max Gluckman: Interesse em tensões e crises, especialmente em contextos urbanos africanos.
      • Fredrik Barth: Em Models of Social Organization (1966), propôs que a estrutura social é um produto de "transações" e trocas pragmático-estratégicas entre indivíduos maximizadores. Ele via a política como um jogo de poder e o indivíduo como agente de mudança.
      • Edmund Leach: Political Systems of Highland Burma (1954) analisou tensões e conflitos na política, mostrando que os kachins oscilavam entre modelos políticos igualitários e hierárquicos. Ele argumentou que os mitos não são "cartas sociais" fixas, mas "cartas para problemas", abertas a interpretações. Leach fez uma distinção importante entre modelos (idealizações úteis) e realidade.
    • Análise de Papéis e Teoria dos Sistemas: Ralph Linton introduziu a distinção entre status (posição formal, estática) e papel (expressão do status no comportamento, dinâmica). Erving Goffman (microssociólogo de Chicago) desenvolveu a perspectiva dramatúrgica da vida social (The Presentation of Self in Everyday Life, 1959), focando nas motivações e estratégias do ator. Gregory Bateson (com Mead) aplicou a cibernética (teoria dos sistemas complexos, auto-reguladores) à antropologia, focando nas relações de causação circular e no fluxo de informação (metacomunicação), vendo a sociedade como uma rede interconectada.

Capítulo 4: Expansão e Institucionalização

Este capítulo aborda o período entre as duas Guerras Mundiais (principalmente as décadas de 1930 e 1940), quando a antropologia passou de sua fase de fundação para uma disciplina mais consolidada e institucionalizada.

  • O Contexto da Disciplina e a "Rotinização" da Antropologia:
    • Argumento Principal: Após a "revolução" iniciada por figuras como Radcliffe-Brown e Malinowski, a antropologia buscou solidificar-se como uma disciplina viável. Isso implicava não apenas avanços teóricos e metodológicos, mas também a necessidade de rotinização, ou seja, de formar estudantes, publicar revistas, organizar conferências e garantir empregos para o crescente número de pesquisadores. A disciplina, embora em crescimento e diversificação, ainda era vista como "marginal".
    • Como o autor chega a isso: Os autores observam que o período de "despertar carismático" da antropologia levou inevitavelmente à sua institucionalização, um processo descrito por Weber como "do carisma à rotina". A marginalidade da disciplina era, em parte, atribuída ao seu foco em povos "desprezíveis" (não ocidentais, de classe média) e ao método de trabalho de campo holístico, que pressupunha que todas as sociedades e culturas tinham o mesmo valor. Antropólogos frequentemente adotavam a perspectiva dos povos estudados, questionando decisões "de cima", e eram, em sua maioria, politicamente radicais.
    • A Relação com o Colonialismo:
      • Argumento Principal: Contrariamente a acusações de que antropólogos britânicos cooperavam passivamente ou ativamente com as administrações coloniais em troca de financiamento, os autores, citando Jack Goody, defendem que essas acusações eram, em grande parte, infundadas.
      • Como o autor chega a isso: Eles mostram que a maior parte das pesquisas de campo era financiada por fundações americanas, e que administradores coloniais eram frequentemente indiferentes aos antropólogos. Contudo, reconhece-se que os projetos de pesquisa eram inevitavelmente moldados por seus contextos históricos específicos, incluindo os interesses coloniais (por exemplo, o foco britânico na organização política africana).
  • O Desenvolvimento das Três Tradições Nacionais (EUA, Grã-Bretanha, França):
    • Antropologia Americana (Legado Boasiano):
      • Argumento Principal: Dominada por Franz Boas por quatro décadas, a antropologia americana era caracterizada por sua amplitude e diversidade, pautada por uma "abordagem de quatro campos" (linguística, antropologia física, arqueologia e antropologia cultural) e uma definição abrangente de "cultura" que incluía fenômenos materiais, sociais e simbólicos. O particularismo histórico (cada cultura possui seus próprios valores e história única) e o relativismo cultural (as diferenças inatas não explicam a variação cultural) eram princípios centrais.
      • Como o autor chega a isso: Boas, influenciado pela tradição humanista romântica alemã (especialmente Bastian), desconfiava das generalizações grandiosas e da comparação excessiva. Seus alunos, embora se especializassem, continuaram seu legado.
      • Escola da Cultura e Personalidade (Ruth Benedict e Margaret Mead):
        • Argumento Principal: Focava nas relações entre fatores psicológicos (personalidade, emoções, caráter) e condições culturais (socialização, papéis de gênero, valores), afirmando que as emoções e a cultura estavam interligadas e que a cultura não era inata.
        • Como o autor chega a isso: Benedict analisou culturas como padrões macropsicológicos, estilos emocionais ou estéticas que permeavam a ação, como em Patterns of Culture e The Chrysanthemum and the Sword. Mead, por sua vez, explorou a influência cultural no desenvolvimento adolescente, como em Coming of Age in Samoa. Embora populares, seus trabalhos foram criticados por falta de rigor científico. Ralph Linton também contribuiu para a antropologia psicológica, questionando a ideia de "culturas como personalidades ampliadas".
      • História Cultural (Alfred Kroeber e Robert Lowie):
        • Argumento Principal: Kroeber, aluno de Boas, concentrou-se na história cultural, defendendo a ideia de que as culturas eram "superorgânicas", sistemas integrados com dinâmica própria, mais do que a soma de suas partes biológicas ou individuais.
        • Como o autor chega a isso: Kroeber construiu uma vasta base de dados etnográficos e argumentou que a cultura possuía uma autonomia que permitia inovações independentes. No entanto, Boas e outros criticaram a "reificação" da cultura.
      • Etnolinguística (Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf):
        • Argumento Principal: A hipótese Sapir-Whorf propunha que a língua molda profundamente a percepção do mundo de seus falantes. Sapir também via a cultura como menos monolítica e mais como uma fonte de divergências, com regras subjacentes que permitem a contestação.
        • Como o autor chega a isso: Suas pesquisas mostraram como diferenças na sintaxe, gramática e vocabulário (ex: Hopi vs. línguas europeias) influenciavam a visão de mundo.
      • Escola de Chicago:
        • Argumento Principal: Pioneira em estudos de etnicidade, urbanização, camponeses e migração, esta escola desenvolveu uma microssociologia focada na interação interpessoal em ambientes limitados, conhecida como interacionismo simbólico.
        • Como o autor chega a isso: Inspirada em sociólogos rurais europeus como Alexander Chayanov e Florian W. Znaniecki, a escola produziu estudos monumentais como The Polish Peasant in Europe and America. Figuras como Erving Goffman (com sua teoria do papel e a metáfora dramatúrgica da vida social) e Raymond Birdwhistell (comunicação não-verbal) tiveram grande influência.
    • Antropologia Britânica ("Kinshipology"):
      • Argumento Principal: Dominada pelo estrutural-funcionalismo de Radcliffe-Brown e seus alunos, esta escola via a sociedade como um sistema integrado e funcional, onde o parentesco era o princípio organizador fundamental. O foco era nas estruturas sociais abstratas e nos mecanismos de integração, não nas motivações individuais ou na história.
      • Como o autor chega a isso: Meyer Fortes e E.E. Evans-Pritchard, proeminentes alunos de Malinowski que aderiram a Radcliffe-Brown, produziram monografias clássicas na África (Tallensi, Ashanti, Azande, Nuer) que exemplificavam essa abordagem, mudando o foco regional do Pacífico para a África. Evans-Pritchard, em Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande, buscou integrar a explicação funcionalista com a compreensão da lógica interna do pensamento nativo. No entanto, o estrutural-funcionalismo enfrentava dificuldades em explicar a mudança social, pois assumia que as sociedades tendiam a se reproduzir.
    • Antropologia Francesa (Marcel Mauss e a Expedição Dakar-Djibouti):
      • Argumento Principal: Liderada por Marcel Mauss, a antropologia francesa continuou a visão holística de Durkheim, focando em "fenômenos sociais totais", com uma tríade de pesquisa: etnografia (estudo detalhado), etnologia (comparação regional) e antropologia (generalização teórica-filosófica).
      • Como o autor chega a isso: Mauss, que não realizava trabalho de campo pessoalmente, mas enfatizava metodologias rigorosas, diferenciava-se dos britânicos por sua disposição em usar materiais históricos e buscar a classificação de sociedades. Sua obra mais influente, Ensaio sobre a Dádiva (The Gift), analisou a troca de presentes como um sistema de relações sociais moralmente obrigatórias e socialmente integradoras, que une o indivíduo ao coletivo. A Expedição Dakar-Djibouti, liderada por Marcel Griaule, exemplificou a pesquisa coletiva francesa, com um foco particular em cosmologias complexas (Dogons) e uma abordagem de campo mais formal, utilizando assistentes e intérpretes nativos. Maurice Leenhardt, um missionário e antropólogo autodidata, também realizou trabalho de campo extensivo na Nova Caledônia, focando na tradução cultural no contexto do imperialismo. Lucien Lévy-Bruhl, embora criticado, abriu o campo para o estudo comparativo de estilos de pensamento e problemas de tradução intercultural.
  • Convergências e Divergências entre as Tradições:
    • Argumento Principal: Apesar das diferenças marcantes em métodos, teoria e organização institucional, os fundadores da antropologia moderna compartilhavam o compromisso de estudar os costumes "em relação à cultura total da tribo que os praticava", vendo a antropologia como uma ciência holística que descrevia sociedades ou culturas como todos integrados.
    • Como o autor chega a isso: Os autores destacam que a ideia de "sociedade como sistema" foi uma revolução teórica amplamente aceita. No entanto, as tensões persistiram: Boas e Mauss tinham interesse no difusionismo, enquanto Radcliffe-Brown e Malinowski não. Radcliffe-Brown e Mauss buscavam uma sociologia comparada, enquanto Boas desconfiava dela. Malinowski e Boas, por sua herança germânica, eram particularistas (Malinowski focava nas necessidades individuais, Boas na cultura), enquanto Radcliffe-Brown e Mauss eram coletivistas metodológicos. Essas diferenças foram amplificadas pelas personalidades dos fundadores, como a desconfiança de Boas em relação à generalização e os atritos entre Malinowski e Radcliffe-Brown.

Capítulo 5: Formas de Mudança

Este capítulo explora as transformações na antropologia pós-Segunda Guerra Mundial, com foco nas teorias e perspectivas voltadas para a vida social, organização, interação, política e economia.

  • Contexto Pós-Guerra e Internacionalização:
    • Argumento Principal: O período pós-guerra (décadas de 1950 e 1960) marcou uma fase de expansão e integração para a antropologia, com a ascensão dos Estados Unidos como superpotência acadêmica. As crenças racistas foram renegadas, e a "unidade psíquica da humanidade" se consolidou como pressuposto.
    • Como o autor chega a isso: A disciplina viu um aumento de acadêmicos, recursos e publicações. O conceito de raça foi amplamente abandonado na ciência, e a UNESCO promoveu declarações antirracistas com a participação de antropólogos como Ashley Montagu. No entanto, o universalismo inerente a ideias como os Direitos Humanos gerou ambivalência entre antropólogos culturalmente relativistas, que viam um risco de "imperialismo cultural" (como na declaração da AAA em 1947).
  • Neo-Evolucionismo e Ecologia Cultural (EUA):
    • Argumento Principal: Uma escola materialista emergiu nos EUA, opondo-se ao boasianismo e buscando leis gerais da evolução cultural, sem as conotações morais vitorianas. Ela enfatizava a determinação dos aspectos sociais e ideológicos da cultura pela tecnologia e a integração das sociedades com seu ambiente ecológico.
    • Como o autor chega a isso:
      • Leslie White: Defendeu leis de evolução cultural, destacando a tecnologia como fator determinante.
      • Julian Steward: Desenvolveu a teoria da evolução multilinear, que propunha que culturas, sob condições específicas, poderiam evoluir de modos semelhantes, mas com variações. Ele também foi pioneiro nos estudos de campesinato, integrando análises locais e regionais e incorporando o Estado-nação e o mercado mundial, como no Projeto Porto Rico.
      • Roy Rappaport: Em Pigs for the Ancestors (1967), aplicou a análise ecológica de inspiração cibernética ao ritual, mostrando a relação entre adaptação ambiental e visão de mundo, embora sua obra tenha sido criticada por determinismo funcionalista.
      • Marvin Harris: Articulou o materialismo cultural, defendendo que fatos materiais (economia, ecologia) determinam diretamente a cultura, e foi um forte positivista, analisando fenômenos como a vaca sagrada do hinduísmo sob essa ótica.
  • Formalismo e Substantivismo na Antropologia Econômica:
    • Argumento Principal: Este debate polarizou a antropologia econômica. Os formalistas (e.g., Raymond Firth) defendiam a aplicação universal da teoria econômica clássica (maximização individual) a todas as culturas. Os substantivistas (e.g., Karl Polanyi) argumentavam que a economia não é uma forma universal de ação, mas um "processo instituído" confinado a instituições históricas específicas, levando a racionalidades econômicas diversas.
    • Como o autor chega a isso: Polanyi distinguiu três tipos ideais de economia: reciprocidade (troca de presentes para prestígio social, comum em sociedades de parentesco), redistribuição (bens coletados e distribuídos por um centro, comum em chefias) e troca de mercado (maximiza o ganho, típica de sociedades capitalistas). Formalistas criticavam a visão substantivista como etnocêntrica. O debate enfraqueceu-se com a ascensão do pensamento econômico marxista, mas questões análogas reapareceram em outras áreas.
  • Crítica ao Estrutural-Funcionalismo e o Estudo da Mudança (Grã-Bretanha):
    • Argumento Principal: Instituições como o Rhodes-Livingstone Institute (e mais tarde a Escola de Manchester) foram pioneiras no estudo da mudança social, especialmente em contextos de urbanização e migração na África, desafiando a suposição estrutural-funcionalista de que as sociedades tendem a se reproduzir. A mudança passou a ser vista como inerente à condição humana.
    • Como o autor chega a isso: Estudos como o de Peter Worsley sobre os cultos da carga na Melanésia mostraram como as formas sociais tradicionais se adaptavam e ganhavam novos significados em situações de mudança rápida. Gluckman e seus colegas demonstraram que a mudança era fundamentalmente imprevisível e resultante de relações individuais complexas, levando à teoria de rede de Barnes como uma alternativa mais dinâmica. O conceito de retribalização emergiu para explicar como o novo ambiente urbano reforçava identidades étnicas.
  • Individualismo Metodológico em Cambridge:
    • Argumento Principal: Em contraste com o coletivismo do estrutural-funcionalismo, esta abordagem, influenciada por Malinowski, deu primazia ao indivíduo como agente de mudança, enfatizando a flexibilidade e criatividade na vida social.
    • Como o autor chega a isso: Raymond Firth distinguiu estrutura social (arranjo estável) de organização social (fluxo dinâmico da vida social, onde interesses individuais e escolhas tárticas se encontram). Fredrik Barth aplicou a teoria dos jogos à política, vendo-a como um processo de interesses e estratégias individuais. Edmund Leach, em Political Systems of Highland Burma, mostrou a instabilidade e as múltiplas interpretações de mitos e sistemas políticos, revelando que a vida social é inerentemente volátil e as categorias culturais são contestadas. Barth, em Models of Social Organization, demoliu o conceito durkheimiano de sociedade, afirmando que as formas sociais estáveis são produto de "transações" e escolhas individuais.
  • Análise de Papéis e Teoria dos Sistemas:
    • Argumento Principal: Ralph Linton introduziu a distinção entre status (posição normativa) e papel (expressão comportamental dinâmica do status). Erving Goffman (Escola de Chicago) desenvolveu uma perspectiva dramatúrgica da vida social, focando na interação, nas motivações e estratégias individuais, e na reflexividade da vida social humana. Gregory Bateson introduziu a cibernética na antropologia, estudando os sistemas auto-reguladores e o fluxo de informação, especialmente na comunicação humana.
    • Como o autor chega a isso: Goffman, em The Presentation of Self in Everyday Life, explorou como os indivíduos gerenciam suas "performances". Bateson, em Steps to an Ecology of Mind, desenvolveu o conceito de metacomunicação (mensagens embutidas que definem o contexto) e aplicou modelos cibernéticos para explicar a sociedade.
  • Diferenças na Abordagem da Mudança: O capítulo conclui que, embora tanto materialistas americanos quanto individualistas ingleses abordassem a mudança, eles o faziam de modos distintos. Nos EUA, a mudança era vista como resultado de processos impessoais e históricos; na Inglaterra, como resultado de estrategistas calculistas e empreendedores.

Capítulo 6: O Poder dos Símbolos

Este capítulo, que abrange as décadas de 1950 e 1960, explora o crescente interesse pela comunicação simbólica e pelo significado na antropologia.

  • Da Função ao Significado (Contexto Britânico):
    • Argumento Principal: Houve uma mudança na antropologia britânica do foco na função (estrutural-funcionalismo) para o significado dos símbolos, impulsionada por Evans-Pritchard, que rompeu com a ortodoxia funcionalista e se aproximou de uma abordagem mais histórica e interpretativa.
    • Como o autor chega a isso: E.E. Evans-Pritchard, em sua Marett Lecture de 1950, repudiou o estrutural-funcionalismo, afirmando que a antropologia social era mais afim à história do que às ciências naturais e que o estudo sincrônico não podia se equiparar ao histórico. Seu livro posterior, Nuer Religion (1956), focou na compreensão da visão de mundo Nuer, em vez de sua explicação sociológica. O filósofo Peter Winch, em The Idea of a Social Science and Its Relation to Philosophy (1958), reforçou essa virada ao argumentar a impossibilidade de conhecimento objetivo sobre fenômenos culturais, dado que o significado é culturalmente definido, o que gerou o Debate da Racionalidade sobre tradução intercultural.
    • Victor Turner e o Ritual:
      • Argumento Principal: Turner (aluno de Gluckman) desenvolveu uma perspectiva sobre símbolos e coesão social, vendo o ritual como um processo social dinâmico que expressava valores centrais e tensões sociais, contribuindo para a integração social. Ele introduziu os conceitos de drama social e, fundamentalmente, liminaridade.
      • Como o autor chega a isso: Em Schism and Continuity in an African Society (1957), Turner utilizou o "drama social" para analisar a resolução de conflitos em sociedades matrilineares. Em The Ritual Process (1967), ele expandiu a ideia de liminaridade (um período intermediário de incerteza e crise nos ritos de passagem, inspirada em van Gennep) e enfatizou a multivocalidade dos símbolos (múltiplos significados), que podem criar comunidade entre pessoas diferentes.
    • Mary Douglas e a Classificação Simbólica:
      • Argumento Principal: Mary Douglas (aluna de Evans-Pritchard) combinou o estrutural-funcionalismo com uma análise simbólica sofisticada, argumentando que os símbolos são meios de classificação social que refletem e mantêm a ordem social. Fenômenos "intermediários" ou "inclassificáveis" (como sujeira, animais sem pernas) representam uma ameaça à estabilidade social.
      • Como o autor chega a isso: Em Purity and Danger (1966), Douglas demonstrou como a categorização simbólica (puro/poluído) está ligada a instituições sociais, diferenciando-se de abordagens que viam anomalias como fontes de inovação.
  • Etnociência e Antropologia Simbólica (Contexto Americano):
    • Argumento Principal: No pós-guerra, nos EUA, a etnociência buscou descrever "gramáticas culturais" através da identificação de componentes básicos de sistemas de conhecimento, frequentemente usando métodos quantitativos e análise componencial. A antropologia simbólica, por sua vez, redefiniu a cultura como um sistema simbólico independente.
    • Como o autor chega a isso: Harold Conklin, Charles Frake e Ward Goodenough desenvolveram a etnociência, baseando-se no interesse da escola da cultura e personalidade pela socialização e na linguística formal. A obra Culture: A Critical Review of Concepts and Definitions (1952), de Kroeber e Clyde Kluckhohn, recomendou uma definição mais limitada e cognitiva de cultura. Talcott Parsons, influente sociólogo, propôs uma "divisão temporária do trabalho" onde a antropologia se concentraria nos aspectos simbólicos da vida social.
    • David Schneider e o Parentesco como Cultura:
      • Argumento Principal: Em American Kinship (1968), Schneider revolucionou os estudos de parentesco ao argumentar que este era um universo cultural construído, sem necessidade de referência a laços biológicos. O significado dos termos de parentesco era derivado da rede semântica integrada da cultura específica.
      • Como o autor chega a isso: Sua pesquisa com informantes americanos revelou uma vasta e complexa rede de parentesco, desafiando os modelos comparativos baseados em Morgan e a ideia de uma base biológica universal para o parentesco.
    • Clifford Geertz e a Antropologia Interpretativa:
      • Argumento Principal: Geertz, influenciado por Weber, Schütz e Paul Ricoeur, defendia que a sociedade (ou cultura) podia ser interpretada como um texto, e que a tarefa do antropólogo era realizar uma "descrição densa" para compreender o mundo do ponto de vista nativo. A religião, por exemplo, era um meio para os indivíduos compreenderem o mundo.
      • Como o autor chega a isso: Seus artigos, reunidos em The Interpretation of Cultures (1973), defendiam uma abordagem hermenêutica, vendo o indivíduo como um "leitor" ativo do mundo. Ele criticava a ideia de que a sociedade era sempre racionalmente constituída e que o indivíduo participava dela apenas por ação racional.
  • Claude Lévi-Strauss e o Estruturalismo (Contexto Francês):
    • Argumento Principal: Lévi-Strauss consolidou o estruturalismo, uma teoria que buscava as qualidades gerais de sistemas significativos (parentesco, mitos) através da análise das relações (contrastes, diferenças) entre seus elementos, em vez dos elementos em si. Ele argumentou que o parentesco era um sistema significativo baseado na aliança (troca de mulheres entre grupos), não na descendência biológica.
    • Como o autor chega a isso: Inspirado pela linguística estrutural (Jakobson, Saussure), sua obra Les Structures élémentaires de la parenté (1949) foi revolucionária, destacando o casamento como a fissura pela qual a cultura penetra no parentesco. Em The Savage Mind (1962), Lévi-Strauss comparou o pensamento "selvagem" (bricoleur, que cria estrutura a partir de eventos acessíveis aos sentidos) e o "científico" (engenheiro, que cria eventos a partir de abstrações), afirmando que ambos são complexos e racionais. Sua monumental Mythologiques (1967-1974) analisou mitos nativos americanos.
    • Impacto e Debates: O estruturalismo teve um impacto limitado na antropologia anglo-saxã antes dos anos 1960 devido à falta de traduções. No entanto, figuras como Edmund Leach na Inglaterra adotaram suas ideias, vendo-as como uma alternativa sofisticada ao empirismo inglês. O debate aliança versus descendência tornou-se central nos estudos de parentesco, com Lévi-Strauss priorizando a aliança sobre a descendência, e Fortes defendendo o modelo de linhagem. Louis Dumont desenvolveu sua própria versão do estruturalismo, combinando Lévi-Strauss com a sociologia clássica, focando na hierarquia e nos valores (como em Homo Hierarchicus sobre o sistema de castas indiano).
  • O Estado da Arte em 1968:
    • Argumento Principal: Em 1968, a antropologia era uma disciplina muito diversificada, com múltiplos debates teóricos em andamento, mas as diferenças entre as tradições nacionais ainda eram marcantes.
    • Como o autor chega a isso: Os autores observam que, apesar de tentativas de diálogo, as abordagens teóricas eram frequentemente diferentes o suficiente para dificultar a comunicação direta (e.g., Firth e Schneider abandonando a comparação de parentesco, Lévi-Strauss e Needham). Barreiras linguísticas e conflitos políticos (descolonização, Cortina de Ferro) também impediam uma internacionalização plena da disciplina, embora o inglês estivesse se tornando uma língua franca.

Capítulo 7: Questionando a autoridade

Este capítulo aborda a radicalização da academia nos anos 1970, focando em duas correntes intelectuais principais que surgiram na antropologia: o marxismo e o feminismo, e discute também a ascensão dos estudos de etnicidade e os debates em torno da sociobiologia.

  • A Antropologia Marxista

    • Contexto e Relevância: Os autores explicam que Marx, apesar de ser um sociólogo do século XIX, tornou-se novamente relevante nos anos 1970 devido à crescente visibilidade das injustiças globais, o que motivou muitos antropólogos a buscar formas de contribuir para eliminá-las. A obra de Marx forneceu uma linguagem para expor esses problemas.
    • Principais Vertentes:
      • Marxismo Cultural (ou estudos de superestrutura): Inspirado por Antonio Gramsci (ideologia e hegemonia) e pela Escola de Frankfurt (crítica à mercantilização da cultura). Essa corrente entrou na antropologia mais tarde, com a publicação de Orientalism (1978) de Edward Said, que criticava as representações europeias do "outro" por exotizá-lo. Essa vertente se misturou com o pós-estruturalismo de Michel Foucault e o desconstrucionismo de Jacques Derrida.
      • Marxismo Estrutural:
        • Claude Meillassoux: Antropólogo francês que em 1960 apresentou uma análise marxista da produção de subsistência em sociedades agrícolas, focando na dinâmica entre as relações sociais de produção e os meios tecnológicos e ambientais. Ele desenvolveu uma tipologia dos "modos de produção pré-capitalistas" na África, propondo o "modo de produção doméstico" (baseado na família), que não havia sido descrito por Marx. Meillassoux, embora empírico, era crítico do funcionalismo por encobrir a exploração econômica através do parentesco.
        • Louis Althusser: Filósofo cujas interpretações de Marx flexibilizaram a relação entre infraestrutura (condições materiais e divisão do trabalho) e superestrutura (sistemas ideacionais como religião, lei, ideologia). Althusser argumentou que, embora a economia determine "em última instância", qualquer instituição social pode ser dominante de fato em uma dada sociedade (ex: a Igreja na Europa Medieval).
        • Conexão com Lévi-Strauss e Dumont: Os autores notam que a obra de Lévi-Strauss, que se caracterizava como marxista, tratava exclusivamente da superestrutura, e a visão de Louis Dumont (valores determinando a estrutura de poder) era diretamente oposta à dos marxistas.
        • Declínio: Embora o marxismo estrutural francês tenha tido um impacto significativo ao focar na desigualdade e no poder, ele começou a declinar como uma tendência coesa a partir da década de 1970, em parte por sua dificuldade em conciliar o marxismo ortodoxo (teoria da sociedade capitalista, com viés evolucionista unilinear) com a pesquisa etnográfica de sociedades pré-capitalistas.
      • Economia Política (Antropologia Marxista Americana):
        • Origem: Começou nos primeiros anos pós-guerra com alunos de Steward, White e Fried, florescendo nos anos 1970.
        • Marvin Harris: Defendeu o "materialismo cultural", postulando que os fatos materiais da economia e da ecologia determinam diretamente a cultura. Ele explicou a vaca sagrada no hinduísmo como um exemplo de racionalidade econômica e ecológica, rejeitando o que ele via como programas de pesquisa "inferiores". Harris via a história da disciplina como uma narrativa evolucionista unilinear.
        • Marshall Sahlins: Passou da ecologia cultural e marxismo para o simbolismo. Em Stone Age Economics (1972), ele argumentou que sociedades caçadoras-coletoras eram a "sociedade afluente original" e que a reciprocidade generalizada era a norma em sociedades tribais, opondo-se ao individualismo maximizador da economia formalista. Ele criticou o marxismo por seu reducionismo em Culture and Practical Reason (1976).
        • Eric Wolf: Grande proponente dessa escola. Sua obra Europe and the People Without History (1982) analisou os efeitos complexos do colonialismo nos povos estudados por antropólogos, focando na interconexão entre o destino das comunidades locais e os processos globais de grande escala, impulsionados pelo lucro econômico e resultando em acumulação de capital no centro e exploração na periferia (especialmente dos camponeses).
        • Teoria da Dependência: Ligada à teoria do sistema mundial, argumentava que o intercâmbio entre regiões ricas e pobres resultava em acumulação de capital no Norte e privação no Sul.
        • Relação com o Colonialismo e Desenvolvimento: Os autores destacam que, antes dos anos 1970, a antropologia mainstream tendia a ignorar as massas pobres dos trópicos por serem "aculturadas demais" e seu foco no "povo único" era incompatível com a economia política global. A obra de Wolf e Sidney Mintz começou a integrar estudos locais com análises sistêmicas e históricas mais amplas, direcionando a atenção para o Caribe e a América Latina e para os camponeses.
  • Feminismo e o Início do Trabalho de Campo Reflexivo

    • Abertura para o Pessoal: A publicação de relatos mais pessoais de trabalho de campo, como Return to Laughter (1954) de Laura Bohannan e Stranger and Friend (1966) de Hortense Powdermaker, além dos diários póstumos de Malinowski (1967) que revelaram suas frustrações, começaram a desmistificar a ideia de "conhecimento objetivo" e a abrir espaço para a reflexividade.
    • Mulheres no Campo: O volume Women in the Field (1970) levantou a questão de como o gênero das pesquisadoras influenciava os dados, dando origem à ideia de "trabalho de campo posicionado".
    • Edwin Ardener: Seu ensaio "Belief and the Problem of Women" (1972) destacou a "ausência" e o "silenciamento" das mulheres na antropologia clássica, argumentando que os etnógrafos (homens e mulheres) se relacionavam mais facilmente com informantes masculinos, que dominavam a esfera pública. Ele sugeriu que as informações femininas muitas vezes não eram estruturadas de forma fácil para as notas de campo.
    • Michelle Rosaldo e Louise Lamphere (Woman, Culture and Society, 1974): Responderam a Ardener, explorando a dicotomia esfera doméstica/pública, onde as restrições físicas da mulher (parto) as confinavam ao doméstico, enquanto os homens constituíam a esfera pública.
    • Impacto: O feminismo introduziu o gênero e o corpo como temas centrais, revisou conceitos de poder e estimulou o estudo da "resistência" de grupos oprimidos. Muitas mulheres antropólogas começaram a ter voz.
  • Estudos de Etnicidade

    • Sociedades Plurais (Michael G. Smith, 1965): Termo para sociedades com múltiplos grupos étnicos que competem pelo poder, levantando o debate sobre se esses grupos são culturalmente discretos ou integrados.
    • Dimensão Instrumental e Política:
      • Abner Cohen (Custom and Politics in Urban Africa, 1969): Mostrou como comerciantes hausas usavam parentesco, etnicidade e religião para monopólios comerciais. Ele separou etnicidade de cultura, sugerindo que a etnicidade é um fenômeno social e político, e que empreendedores políticos podem manipular símbolos étnicos para obter lealdade.
      • Fredrik Barth (Ethnic Groups and Boundaries, 1969): Uma das obras mais citadas. Barth argumentou que a etnicidade é definida pela "fronteira étnica", não pelo conteúdo cultural. O que importa é a relação entre grupos e como eles se percebem como diferentes, provando essa diferença através da interação. Essa perspectiva formalista, com foco na comunicação e manutenção da fronteira, influenciou os estudos de etnicidade.
    • Impacto: Os novos modelos de etnicidade foram compatíveis com as tendências emergentes nas décadas de 1980 e 1990 (nacionalismo, globalização, identidade), pois se concentravam na desigualdade de poder, no contexto global, nos discursos "silenciados" e na desconstrução cultural.
  • Teoria da Prática

    • Síntese Teórica: Proposta por Sherry Ortner (1984) para unificar as abordagens centradas no ator e na estrutura, além das perspectivas sociológicas e culturais, focando no corpo humano como o principal lócus de interação social.
    • Anthony Giddens: Em Central Problems in Social Theory (1979) e The Constitution of Society (1984), ele buscou unificar estrutura e agência (o poder do indivíduo de criar a sociedade e as restrições impostas por ela), distinguindo entre razão discursiva e prática e um nível subconsciente.
    • Pierre Bourdieu (Esquisse d’une théorie de la pratique, 1972): Unificou influências de Marx, Lévi-Strauss, Mauss, Durkheim e Weber.
      • Habitus: Internalização permanente da ordem social no corpo humano, formando disposições e esquemas de percepção (ex: masculino/feminino, direita/esquerda) e posturas corporais.
      • Doxa e Opinião: Doxa é o conhecimento dado como fato consumado, não discutível; opinião é o que está aberto a escrutínio e divergência.
    • Michel Foucault: Sua obra, como Vigiar e Punir (1975), influenciou os estudos do poder e do corpo. Ele enfatizou a violência da "impressão" da disciplina no corpo e os "regimes de conhecimento" (discursos) que se impõem sobre os indivíduos.
    • Impacto: A teoria da prática abriu um novo campo de investigação focado no corpo humano, conectando a antropologia à biologia, à performance ritual (Victor Turner) e à comunicação não-verbal.
  • O Debate Sociobiológico e Samoa

    • Sociobiologia (Edward O. Wilson, 1975): Propôs a inclusão das ciências sociais na biologia evolucionária, vendo a cultura como uma adaptação biológica para a produção de descendência. Isso gerou hostilidade extrema na antropologia, que a via como determinismo biológico e um renascimento do racismo científico.
    • Críticas: Antropólogos como Marvin Harris (materialista cultural) e Marshall Sahlins (The Use and Abuse of Biology, 1977) argumentaram que a variação cultural era explicada por fatores ecológicos/demográficos/tecnológicos, e que conceitos como "seleção por parentesco" (lealdade baseada em proximidade genética) eram culturalmente relativos. Lévi-Strauss e Tim Ingold também criticaram a sociobiologia.
    • Controvérsia Mead-Freeman:
      • Margaret Mead (Coming of Age in Samoa, 1928): Sua obra defendia o relativismo cultural e a primazia do "nurture" (cultura/criação) sobre "nature" (biologia), influenciando o feminismo e o liberalismo.
      • Derek Freeman (Margaret Mead and Samoa: The Unmaking of an Anthropological Myth, 1983): Atacou a pesquisa de Mead, alegando que seu trabalho de campo era superficial e suas conclusões equivocadas. Descreveu uma Samoa violenta e puritana, oposta à visão romântica de Mead. Essa crítica gerou um grande escândalo e hostilidade na comunidade antropológica, que viu Freeman como um aliado do determinismo biológico. Os especialistas em Samoa eram ambíguos na avaliação dos méritos de ambos.
    • Impacto: O debate revelou profundas divisões na antropologia sobre questões de natureza versus cultura, ética profissional e a validade de abordagens científicas versus humanísticas.

Capítulo 8: O fim do Modernismo?

Este capítulo explora a década de 1980, um período de dúvida e questionamento na antropologia, marcado pelo surgimento do pós-modernismo e do pós-colonialismo, que desafiaram as fronteiras e premissas da disciplina.

  • Pós-modernismo e a Virada Reflexiva

    • Definição: Os autores explicam que o pós-modernismo, cunhado por Jean-François Lyotard em La Condition postmoderne (1979), é uma condição em que não há mais "grandes narrativas" abrangentes para dar sentido ao mundo. Diferentes vozes competem, mas não se integram. Isso levou a uma visão de mundo descontínua e fragmentada, com um relativismo cultural intransigente (indo além de Boas), onde todos os mundos e visões de mundo são "iguais".
    • Influência de Foucault: Michel Foucault, embora não se considerasse pós-modernista, influenciou a nova geração de antropólogos. Sua obra sobre "discurso" mostrou como certas agendas e definições se desenvolvem através de lutas de poder e se impõem sobre o corpo humano. Antropólogos como Paul Rabinow argumentaram que a própria antropologia era um "regime de conhecimento", o que implicava que o conhecimento antropológico não era neutro, mas situado e imbuído de poder.
    • Desconstrução (Jacques Derrida): O método de Derrida, influenciado por Foucault e Roland Barthes, propôs a "desconstrução" de textos para expor seus pressupostos hierárquicos e encontrar expressões marginais que desafiam o poder. Aplicado à antropologia, isso levou ao "fim da autoridade etnográfica": não existe uma "visão onisciente", privilegiada e fixa. Todo conceito é escorregadio, e toda descrição pode ser contestada, elevando a autocrítica na disciplina.
    • "Declínio do Modernismo" (Edwin Ardener, 1985): Ardener argumentou que a antropologia social modernista (funcionalismo, estrutural-funcionalismo, estruturalismo) baseava-se em premissas (distinção sujeito-objeto clara, visão "primitivista" de sociedades estáveis, atemporalidade) que se tornaram indefensáveis, levando à perda de sua legitimidade e momentum. Ele previu que o trabalho de campo seria desacreditado e os textos se tornariam apenas comentários sobre outros textos.
    • Etnografias Experimentais: O movimento pós-modernista na antropologia americana, com figuras como James Clifford, Stephen Tyler, George Marcus, Michael Fischer e Renato Rosaldo, buscou desafiar a "alterização" reificada da antropologia clássica. Eles propunham "etnografias experimentais", onde os informantes participavam como parceiros iguais na produção do conhecimento.
      • Anthropology as Cultural Critique (Marcus & Fischer, 1986) e Writing Culture (Clifford & Marcus, 1986) foram obras fundamentais. Elas criticaram a ideia de cultura como um "todo integrado", questionaram os mecanismos retóricos da antropologia "científica" e enfatizaram métodos "dialógicos" e contextualização histórica.
      • Clifford em The Predicament of Culture (1988) argumentou contra o essencialismo, e Clifford Geertz em Works and Lives: The Anthropologist as Author (1988) enfatizou os aspectos retóricos e literários dos escritos etnográficos.
    • Vínculos e Críticas: O pós-modernismo teve fortes vínculos com os estudos literários e a filosofia francesa. Embora alguns críticos vissem a antropologia pós-moderna como uma forma extrema de boasianismo, outros, como Ernest Gellner, a criticaram severamente por "preguiça mental", conceitos mal definidos e por minar a verdade científica, confundindo ideologia e análise.
    • Impacto Geral: A antropologia pós-moderna, embora controversa, fez com que a disciplina não pudesse mais ser vista como um discurso privilegiado com acesso à verdade objetiva, aumentando a reflexividade e o questionamento da autoridade autoral.
  • O Mundo Pós-Colonial

    • Crítica à Autoridade Metropolitana: O movimento pós-colonial questionou o direito dos intelectuais da metrópole de definir "os nativos" e a autoridade intelectual ocidental em geral.
    • Frantz Fanon: Sua obra, como Black Skin, White Masks (1956), analisou o sentimento de inferioridade imposto aos colonizados e a necessidade de revolução.
    • Vine Deloria: Atacou os antropólogos boasianos, acusando seu relativismo de condenar os nativos americanos ao exotismo eterno.
    • Edward Said (Orientalism, 1978): Lançou o movimento pós-colonial. Ele afirmou que as representações ocidentais do "Oriente" eram permeadas por fascínio ambivalente e aversão, baseadas em dicotomias simplistas (Ocidente como ciência/racionalidade vs. Oriente como sua negação). Said argumentou que o conhecimento ocidental "essencializava" (reificava) o modo de vida do "outro".
    • Impacto na Antropologia: Embora a antropologia pudesse ser um antídoto ao orientalismo (ao oferecer interpretações simpáticas), os autores reconhecem que a disciplina muitas vezes teve uma tendência "paternalista" e que o holismo de análises clássicas podia criar uma imagem passiva e imutável do "outro".
    • Consequências: A crítica pós-colonial levou a uma desconfiança crescente em relação aos antropólogos no Terceiro Mundo. Isso resultou no enfraquecimento do relativismo cultural tradicional e em uma maior atenção aos processos de larga escala da história global, com abordagens sistêmicas e históricas (como as de Wolf e Mintz) ganhando relevância. Também estimulou a conceitualização da especificidade da escrita etnográfica por região.
  • Outras Vozes (Desenvolvimentos no final dos anos 1980)

    • Marilyn Strathern (The Gender of the Gift, 1988): Utilizou a desconstrução para analisar conceitos de identidade pessoal e troca na Melanésia, criticando as teorias clássicas por não considerarem o gênero. Ela elevou as perspectivas feministas a debates teóricos centrais.
    • Fenomenologia: Antropólogos como Tim Ingold (Evolution and Social Life, 1986) exploraram a aplicação da fenomenologia, que rejeita a dicotomia sujeito-objeto, enfatizando a ligação intrínseca das pessoas com o mundo não-humano e buscando aproximar a antropologia das "ciências da vida".
    • Antropologia do Desenvolvimento: Cresceu nos anos 1970 e 1980, com antropólogos aconselhando em projetos de ajuda. Eles foram pioneiros na defesa de projetos de pequena escala, no foco nas mulheres e na consciência ecológica.
    • Antropologia Médica: O subcampo de mais rápido crescimento. Centrava-se na compreensão do contexto social da saúde e doença, aplicando uma crítica "desconstrucionista" construtiva aos conceitos médicos (ex: Ronald Frankenberg).
    • Estudos do Nacionalismo: Ganharam destaque. Menos vulneráveis à crítica pós-moderna, pois não postulavam culturas homogêneas atemporais, mas exploravam como as elites políticas e culturais afirmavam a existência de culturas por razões estratégicas. Situavam o objeto de estudo firmemente na história e não eram neocoloniais. Incluíram estudos sobre a violência associada aos movimentos nacionalistas.

Capítulo 9: Reconstruções

Este capítulo final reflete sobre as tendências da antropologia na década de 1990 e as questões duradouras que continuam a definir a disciplina, mesmo diante de um mundo em constante mudança.

  • Ambivalência e Diversidade

    • A década de 1990 foi marcada por uma incerteza e ambivalência na vida intelectual, com um recuo generalizado da teoria para a etnografia, e em alguns casos, do próprio projeto da antropologia.
    • A disciplina continuou a crescer e a se diversificar em subcampos especializados. A predominância do inglês como língua franca na academia se acentuou, facilitando a comunicação global, mas também levantando questões sobre a homogeneização ou heterogeneização das tradições nacionais.
    • A queda da Cortina de Ferro "abriu" uma nova região etnográfica (Europa Oriental e ex-União Soviética), revelando tradições antropológicas desconhecidas no Ocidente e estimulando o desenvolvimento de novas abordagens teóricas e metodológicas.
  • Continuidades e Novas Perspectivas

    • Observação participante intensiva: Permaneceu como o método preferencial para obter conhecimento confiável, embora complementada por outros métodos e adaptada a sociedades complexas.
    • Construção social e cultural da realidade: Continuou sendo aceita pela maioria, embora com uma "mistura variável de relativismo pós-moderno".
    • Recuo do pós-modernismo extremo: Houve um retorno a um "realismo" etnográfico mais equilibrado, mostrando que o conhecimento antropológico pode ser relativo, mas ainda relevante.
    • Interesse equilibrado: O particularismo e relativismo cultural extremos dos anos 1980 foram suplantados por um interesse mais equilibrado na relação entre o universalmente humano e o culturalmente particular. Houve uma redescoberta de obras passadas, como a de Mauss.
    • Fim das Dicotiomias Simples:
      • "Nós e eles" / "Observador e observado": Tornou-se indefensável, com os "nativos" capazes de se autoidentificar e resistir às tentativas antropológicas de "ditar" quem eles "realmente" são. Isso aumentou a consciência ética na disciplina.
      • "Tradicional-moderno": Também se tornou quase indefensável. Os autores sugerem que a aversão ao evolucionismo na década de 1990 pode ter levado a um "ponto cego" em relação às diferenças empíricas entre sociedades (caçadores-coletores vs. pós-industriais), que são importantes para teorias gerais da sociabilidade humana.
    • Interesse Renovado no Ambiente Físico: Estudos de ecossistemas tradicionais, paisagens urbanas e cibernéticas virtuais ganharam destaque, conectando-se à ênfase no corpo físico da teoria da prática.
  • Duas Tendências Principais na Década de 1990 (Foco dos Autores):

    • Biologia e Cultura:
      • A Questão Central: A disciplina tradicionalmente focava no "que significa ser um ser humano" (cultural/experiencial), em oposição a "o que é o ser humano" (biológico/evolucionário).
      • Revitalização da Relação com Ciências Naturais: Houve um ressurgimento dessa relação, impulsionado por avanços nas ciências biológicas.
      • STS (Studies in Technology and Science): O trabalho de Bruno Latour e Steve Woolgar (Laboratory Life, 1979) e a Teoria de Rede de Atores (Actor-Network Theory - ANT) analisaram como o conhecimento científico se torna um fato social, ligando pessoas, objetos e ideias em redes de "traduções". Latour defendia uma linguagem analítica para descrever as "traduções" entre os campos da ciência e da sociedade, desafiando a dicotomia natureza/sociedade.
      • Ciência Cognitiva: Desenvolveu-se como campo interdisciplinar nos anos 1980 (linguística, psicologia, neurologia, biologia evolucionária). Demonstrava que a mente humana não é uma tabula rasa, mas possui instrumentos especializados com potenciais e limitações específicas. Estudos como os de Scott Atran (1990) sugeriram modos inatos e universais de classificar o mundo natural. Pesquisadores como Dan Sperber e Pascal Boyer propuseram explicações darwinistas da cognição, enquanto outros buscaram pistas na neurologia ou na teoria do esquema (como George Lakoff e Mark Johnson, que defenderam que a cognição se baseia em metáforas derivadas da experiência corporal).
      • Psicologia Evolucionária: Focou nos mecanismos cognitivos baseados na adaptação evolucionária (ex: The Adapted Mind, 1992, por John Tooby e Leda Cosmides). Embora não seja útil ainda, busca explicar a mente humana como composta de domínios adaptativos.
      • Universalismo Tentativo: Essas abordagens sinalizaram um reflorescimento tentativo do universalismo na antropologia, buscando o suporte físico subjacente à cultura.
    • Globalização e Lugar:
      • Debate sobre a Novidade: Embora redes de longo alcance existam há séculos, a velocidade e o volume dos fluxos modernos de informação, pessoas e bens são sem precedentes, exigindo novas agendas teóricas e metodológicas.
      • Impacto da Queda da Cortina de Ferro: Abriu regiões etnográficas e estimulou o intercâmbio de ideias. O trabalho de Katherine Verdery sobre as sociedades socialistas pré-1989 (ex: "Theorizing Socialism", 1991) definiu essa região como um tipo social distinto.
      • "Crioulização Cultural" / "Hibridismo Cultural": Ulf Hannerz redefiniu cultura como fluxo e processo, compatível com as sensibilidades pós-modernas, cunhando "crioulização cultural" para descrever a mistura de tradições.
      • Arjun Appadurai: Em "The Production of Locality" (1995), propôs que as sociedades humanas sempre vivem tensões entre processos locais e globais, e que o ritual funciona como um instrumento para "produzir localidade".
      • Marc Augé (Non-Places, 1991): Analisou o destino das noções clássicas de lugar, cultura e comunidade na era pós-moderna de fluxo e mudança.
      • Conexão com Pós-modernismo: A obra de Marilyn Strathern (Partial Connections, 1991) e outros destacou a similaridade entre os estudos de globalização e o desconstrucionismo, com noções de multiplicidade de vozes, hibridismo e a remoção de distinções claras entre "culturas".
      • Fim das Noções Clássicas de Cultura e Sociedade: A globalização desafia a ideia de uma sociedade ou cultura estável e isolada, tornando-as anacrônicas. Os antropólogos agora podem estudar as representações quase-antropológicas que os próprios povos têm de sua cultura.
      • Continuidade e Adaptação: Antropólogos renomados como Geertz e Sahlins situaram a modernidade no contexto de seus projetos, enfatizando a "indigenização da modernidade" e a permanência das diferenças culturais, apesar da perda de "costumes antigos".
  • Posfácio: Tensões Persistentes e o Futuro da Antropologia

    • Controvérsia Chagnon-Turner (Ianomâmis): Os autores encerram o livro com um exemplo recente e explosivo das divisões na antropologia. A crítica de Terence Turner a Napoleon Chagnon sobre seu trabalho entre os ianomâmis destacou duas tensões perenes:
      • Natureza versus cultura: Chagnon ligava o comportamento cultural à programação genética (perspectiva darwiniana), enquanto Turner o via como autônomo e irredutível à biologia (perspectiva boasiana e pós-moderna).
      • Autenticidade cultural versus ética profissional: Chagnon foi acusado de forjar dados e agir de forma antiética (marcando pessoas, incentivando violência), enquanto Turner defendia uma compreensão da cultura ianomâmi como híbrida e em adaptação à modernidade para sua sobrevivência.
    • Dicotomias Permanentes: Apesar das mudanças em métodos, conceitos e programas de pesquisa, os autores concluem que algumas tensões clássicas da antropologia permanecem intactas, definindo seu espaço intelectual:
      • Antropologia como ciência generalizadora (busca de modelos, ex: Harris, Gellner) versus antropologia como humanidade que busca riqueza interpretativa (ex: Clifford, Strathern).
      • Antropólogos de sociedade (foco em agência, estrutura social, política, ex: Barth, Wolf) versus antropólogos de cultura (foco em símbolos, estruturas mentais, significado, ex: Lévi-Strauss, Geertz).
      • Abordagens que veem sociedade e cultura como fenômenos históricos (ex: estudos de globalização) versus abordagens que buscam estruturas e padrões atemporais/imutáveis (ex: neo-darwinismo).
    • Outras Dualidades: Primitivismo vs. estudos comparativos da modernidade; neodarwinismo vs. fenomenologia/antropologia reflexiva; busca do único vs. busca do universal.
    • Debate Sahlins-Obeyesekere: Exemplifica a tensão entre universalismo e relativismo na agência. Sahlins argumentava que os havaianos integraram o Capitão Cook a um mito, enquanto Obeyesekere sustentava que Sahlins exagerou a "alteridade" deles, que agiam por motivações universais e pragmáticas.
    • Conclusão Final: As grandes questões da antropologia ("O que é sociedade?", "O que é cultura?", "O que é um ser humano?", "O que significa ser um ser humano?") permanecem sem respostas definitivas, sendo respondidas de modos conflitantes. Essa controvérsia é essencial para o desenvolvimento de novas perspectivas e conhecimentos na disciplina.
Thomas Hylland Eriksen. 
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