Argumento Principal: A autora argumenta que as compreensões convencionais de "modernidade" e "desenvolvimento" são eurocêntricas e restritivas, falhando em considerar caminhos históricos alternativos, especialmente na China. Ela propõe o "semicolonialismo" como uma categoria analítica fundamental para entender a modernidade distintiva da China, que se manifestou através de duas trajetórias interligadas, mas conflitantes: uma originada da elite e outra do campesinato.
Como o argumento é desenvolvido:
- Crítica ao Desenvolvimentismo: Inicialmente, a autora pretendia explorar a história social do desenvolvimento chinês em Nantong, mas percebeu que os dados empíricos não se encaixavam na estrutura de "subdesenvolvimento", que trata o desenvolvimento capitalista como um projeto universalizador e devaloria histórias alternativas. Essa moldura resultava em uma "análise negativa e categorias residuais" para a China.
- Crítica à Historiografia Existente: Walker observa que os estudos modernistas ocidentais sobre a China frequentemente ignoraram as relações de poder semicoloniais, apresentando o imperialismo como uma modernidade benéfica. Mesmo os estudiosos radicais, ao criticar o imperialismo, se concentraram em saber se ele impedia ou estimulava o desenvolvimento capitalista, desviando o foco do "semicolonial" como categoria. Mais recentemente, uma nova narrativa de modernização surgiu, que "transparentemente cria uma genealogia para a China pós-socialista" e para o capitalismo global, enfatizando uma linha contínua de modernização "euro-modelada" desde a Dinastia Ming, suprimindo o significado da revolução, do imperialismo e do semicolonialismo.
- Intervenção Analítica: O livro intervém criticamente na historiografia chinesa ao focar no semicolonialismo. Sugere que as consequências da mercantilização da terra e do trabalho em escala global precisam ser analisadas teórica e historicamente, forçando uma compreensão da modernidade chinesa que é "específica e de final aberto", não "fechada, unidimensional e predeterminada" por narrativas euro-modeladas.
- O Papel do Campesinato: Para compreender os dados, foi necessário sair dos limites do desenvolvimentismo. A autora argumenta que a história dos camponeses no delta do Yangzi não pode ser reduzida à lógica do desenvolvimento capitalista ou da modernidade universalizada. Propõe a necessidade de descartar imagens essencializadas dos camponeses como imutáveis e apolíticas, pensando em uma linha independente de desenvolvimento. Cita Antonio Gramsci para abordar como tendências de unificação e uma linha de desenvolvimento independente podem estar ligadas à formação de "campesinatos particulares". A ambiguidade das identidades "fixas" (rural/urbano, trabalhador/camponês) tornou-se uma característica proeminente do semicolonialismo, com uma integração, e não separação, das esferas urbana e rural em Nantong.
- Semicolonialismo como Trópo: O semicolonialismo é visto tanto como um momento histórico quanto como um trópo de dominação, violação e resistência. A dominação na China semicolonial se articulou duplamente: pelo poder do imperialismo de limitar a soberania chinesa e pelo poder da elite indígena sobre as classes produtivas. A ausência de hegemonia foi uma característica comum a ambas as formas de dominação.
- Portos de Tratado: Xangai e outros portos de tratado funcionaram como símbolos da dominação imperialista, mas também representaram suas limitações, pois o estado chinês manteve autonomia ao restringir estrangeiros a esses portos. Esse sistema criou oportunidades para a penetração imperialista, mas também novas oportunidades para comerciantes e elites indígenas.
- Escopo do Livro: O projeto específico do livro é desvendar as múltiplas vertentes do processo semicolonial e as histórias dominantes e alternativas que ele incorporou.
Parte Um. Pontos de Referência: A Transição Ming-Qing e Além
1. Relações de Classe Agrárias e História Camponesa no Delta do Sul do Yangzi Durante a Dinastia Ming
Argumento Principal: A expansão da produção de mercadorias, especialmente de têxteis de algodão, criou uma nova base material para as lutas camponesas contra o senhorio patriarcal no final da Dinastia Ming, permitindo que os camponeses subsistissem de forma independente. Este período também testemunhou a emergência de uma cultura subalterna distinta e de uma nova tendência de unificação na política camponesa, que influenciou profundamente a transição Ming-Qing.
Como o argumento é desenvolvido:
- Base Material (Oyama Masaaki): Walker baseia-se na obra seminal de Oyama Masaaki (1957-58, 1974), que destacou como o desenvolvimento da indústria doméstica comercializada, especialmente a fiação e tecelagem de algodão, possibilitou que servos e arrendatários dependentes de senhores de terras patriarcais subsistissem por conta própria, enfraquecendo as fundações estruturais do senhorio patriarcal.
- Base Cultural e Política: Argumenta que um "domínio cultural" emergiu, fornecendo aos camponeses os meios para atribuir significado às mudanças materiais em termos anti-autoritários e para a atividade política. Este domínio cultural, agindo como um "código coletivo", expressou uma nova tendência à unificação entre os camponeses e abriu novo espaço político e ideológico para suas lutas.
- Intelectuais Itinerantes e Redes Sectárias: A rápida comercialização e a ligação urbano-rural influenciaram e facilitaram a transmissão da cultura subalterna. O termo "intelectual itinerante" é usado para descrever indivíduos engajados em atividades organizacionais, diretivas e educativas, que, segundo Gramsci, podem fomentar a modificação do panorama ideológico de uma época. A nova onda de ativismo camponês no período Jiajing coincidiu com a proliferação de redes White Lotus e outras seitas.
- Artes Marciais: As artes marciais ofereceram uma possibilidade ideológica para produtores e despossuídos transcenderem o mundo da aldeia, combinando preocupações políticas e espirituais com a religião sectária. Isso contribuiu para uma "nova configuração histórica—uma cultura subalterna emergente de proporção multirregional, até nacional".
- Impulsos Igualitários e Contradições: As lutas camponesas do final da Dinastia Ming foram impulsionadas por um "inteiramente novo discurso de liberdade, igualdade e libertação". No entanto, esses impulsos igualitários foram paradoxalmente limitados e prejudicados pelo aprofundamento da desigualdade sexual, pois as mulheres continuavam sendo a principal força de trabalho na produção de algodão. O sucesso dos camponeses em se libertar dos controles patriarcais dos senhores de terras, na verdade, transferiu as relações patriarcais para a família camponesa, fortalecendo a divisão sexual do trabalho.
2. A Visão da Periferia: Tongzhou e o Delta do Norte
Argumento Principal: O capítulo desafia as noções de homogeneização cultural chinesa e a crescente integração social, econômica e cultural durante o final do período imperial. Demonstra que Tongzhou e o delta do norte foram construídos deliberadamente como uma periferia pelas elites do sul, o que permitiu sua exploração por áreas centrais como Jiangnan e Xangai.
Como o argumento é desenvolvido:
- Questionamento da Homogeneização: Estudos recentes sobre a "China moderna inicial" frequentemente apoiam uma visão de crescente integração cultural e econômica. A autora contesta isso, enfatizando a cultura subalterna distinta e a política camponesa unificadora no final da Dinastia Ming, e examinando a posição de Tongzhou como periferia.
- Colonialismo Interno: A estrutura comercial de Tongzhou-Haimen apresentava anomalias, como empresas de algodão pequenas apesar do grande volume de exportações. A autora resolve esse paradoxo aplicando modelos de colonialismo interno, onde áreas centrais (Jiangnan) exploram periferias internas (Tongzhou) para manter suas próprias vantagens, resultando em um aprofundamento das disparidades.
- Subordinação Política e Discriminação Cultural: A subordinação política também inibiu o crescimento econômico em Subei (região mais ampla de Tongzhou). Apesar de algumas semelhanças culturais, como o crescimento de templos budistas, as elites do sul persistiram em ver Tongzhou como uma "área de fronteira atrasada". Essa categorização e a subordinação cultural inerente a ela, que a autora compara ao "racismo" de projetos coloniais, foram essenciais para a construção do delta do norte como periferia, ligando a superioridade cultural à percepção de fraqueza material.
- Conservadorismo e Periferia: A periferização levou a um profundo conservadorismo social entre a elite proprietária de terras do norte, levando-os a recorrer a platitudes confucianas e à repressão do discurso camponês, semelhante ao comportamento de colonialistas europeus que se tornaram mais conservadores do que seus compatriotas em casa. Isso dividiu hierarquicamente as classes dominantes no delta.
3. Tendências Históricas Durante a Dinastia Qing
Argumento Principal: Após as revoltas de libertação Ming-Qing, o estado Qing promoveu ativamente a ortodoxia cultural e assumiu um papel mais ativo na gestão da sociedade local para restabelecer o controle sobre o campesinato. As vitórias camponesas no final da Dinastia Ming, ao enfraquecer o senhorio patriarcal, pavimentaram o caminho para um maior desenvolvimento comercial e a elaboração do senhorio mercantil.
Como o argumento é desenvolvido:
- Intervenção Estatal e Ortodoxia Cultural: O estado Qing promoveu vigorosamente a ortodoxia cultural não apenas para legitimar seu governo como uma dinastia estrangeira, mas, crucialmente, para reestabelecer o controle sobre o campesinato após a onda de rebeliões. Isso incluiu o endurecimento das proibições Ming contra religiões "heterodoxas" e a prática de artes marciais.
- Modelagem da Elite Governante: O Qing também buscou moldar a "nobreza emergente e ambiciosa" que estava minando as normas ideológicas estabelecidas. A nobreza "justa" contribuiu para isso, publicando "livros de moralidade" e defendendo um "ativismo local expandido" para a nobreza proprietária de terras, visando reestabelecer o controle camponês e retificar os "excessos" da nobreza emergente.
- Vitórias Camponesas e Desenvolvimento Comercial: O livro reitera que as vitórias camponesas no final da Dinastia Ming contra o senhorio patriarcal forneceram a estrutura para um maior desenvolvimento comercial no delta. Isso resultou na elaboração do senhorio mercantil e na crescente dependência dos camponeses em relação ao capital mercantil na região central de Jiangnan. No delta do norte, a produção de matéria-prima e tecidos permaneceu integrada.
- Conflitos de Aluguel e "Promotores": No final da Dinastia Ming e início da Qing, a "ética se perdeu e os litígios se tornaram prevalentes". Os conflitos sobre aluguéis eram comuns, com os camponeses também apresentando queixas. "Escritores de queixas educados", frequentemente com diplomas, foram vistos como "promotores" da audácia camponesa, pois "cristalizavam e lideravam os sentimentos do povo".
Parte Dois. O Processo Semicolonial
4. Xangai, Tecido de Algodão e a Formação da Elite Mercantil Moderna de Nantong
Argumento Principal: A abertura dos portos de tratado após a Guerra do Ópio estabeleceu as bases para o desenvolvimento semicolonial, concedendo privilégios a estrangeiros e limitando a soberania chinesa. Em Nantong, isso levou ao surgimento de uma elite mercantil moderna vinculada à economia do porto de tratado de Xangai, que transformou a indústria têxtil de algodão e a agricultura de algodão local.
Como o argumento é desenvolvido:
- Fundação Semicolonial: O Tratado de Nanjing (1842) abriu Xangai e outros portos, inaugurando o semicolonialismo ao conceder privilégios econômicos estrangeiros e limitar a soberania chinesa.
- Eixo Têxtil de Algodão: A produção têxtil de algodão camponesa tornou-se o eixo do processo semicolonial e da transformação da elite no delta do norte. A introdução de fios estrangeiros de máquina impulsionou a indústria têxtil. O comércio de algodão, impulsionado pela demanda global, tornou-se outro eixo, levando à "obsessão com o algodão". Embora em partes do mundo colonial o algodão fosse "a mãe da pobreza", no delta do norte, a resistência camponesa o transformou em "a mãe do radicalismo rural".
- Ascensão da Elite Mercantil: Uma elite heterogênea de comerciantes-empresários-industriais, de base e orientação urbana, emergiu em Nantong, desafiando a antiga elite proprietária de terras. Essa nova classe, impulsionada por um discurso ocidentalizado de modernidade, buscou controlar e extrair excedentes dos camponeses e trabalhadores urbanos. O projeto da elite interligava as economias urbana e rural, reorganizando o campo para atender às necessidades do capital urbano.
- Semicolonialismo como Crisol: O semicolonialismo (integração de Nantong na economia do porto de tratado de Xangai, novas prerrogativas políticas e econômicas, formas de trabalho não orgânicas) acelerou o desafio do capital mercantil ao senhorio, servindo como "crisol para a coalescência de um novo bloco dominante heterogêneo" que combinava prerrogativas políticas, exploração camponesa e interligação cidade-campo.
- Rede Comprador-Bancário-Mercantil: A prosperidade das economias dos portos de tratado disfarçava a fragilidade da rede comprador-bancário-mercantil. O capital mercantil manteve um duplo papel: agente do capital industrial e força autônoma, frequentemente competindo pelo controle da produção. Essa rede foi um mecanismo chave da semicolonialização.
- Empresas Guanzhuang: Essas firmas comerciais de tecido se beneficiaram dos arranjos de crédito e da oferta de fios locais. Continuaram dependendo da rede comprador-comercial de Xangai para a maior parte de suas transações de marketing.
5. Remodelando o Poder Local: O Caminho Autossuficiente de Zhang Jian
Argumento Principal: Zhang Jian, um intelectual-burocrata proeminente, liderou um projeto de desenvolvimento local "autossuficiente" em Nantong, centrado em modernas fábricas de fiação (Dasheng) e sua interligação monopolística com a agricultura e produção têxtil camponesa. Embora apresentado como uma alternativa nacionalista, seu projeto dependia de redes comerciais existentes e visava controlar tanto os competidores chineses quanto os estrangeiros, reforçando o poder da elite e a subordinação rural.
Como o argumento é desenvolvido:
- Visão de Zhang Jian: Zhang (1853-1926) foi uma figura central na modernização patrocinada pela elite. Ele via a "promoção da indústria" como uma solução para o dilema semicolonial da China, buscando "curto-circuitar a drenagem de lucros e matérias-primas" através do sistema de "produção local, vendas locais" (tuchan tuxiao). O moinho Dasheng usava algodão local e vendia para produtores camponeses de tecido guanzhuang.
- Interligação Monopolística: O sucesso de Dasheng se baseou em sua "interligação monopolística com a economia camponesa e o capital mercantil", em grande parte devido às prerrogativas burocráticas de Zhang. Isso concentrou os benefícios do crescimento nas mãos das elites urbanas. A elite moderna (industriais, comerciantes, empresários da gentry) coalesceu como uma classe capitalista comercial-empresarial.
- Distinção da Perspectiva de Esherick: A autora diverge de Esherick, que argumentava que a elite urbana ignorava os problemas rurais. Em vez disso, a ascensão de Zhang Jian dependia de suas ligações e controle sobre o trabalho rural, com o objetivo explícito de reordenar a economia rural para as necessidades do capital urbano.
- Nacionalismo da Elite: O movimento "nacionalista" da elite era uma aspiração coletiva de uma elite comercial parcialmente ocidentalizada, com apoio de compradores, banqueiros e mercadores. Muitos líderes da gentry proprietária de terras e oficiais adotaram o discurso ocidental como um caminho para novas formas de poder local.
- Guerra Sino-Japonesa como Divisor de Águas: A derrota da China em 1894-95 intensificou os sentimentos nacionalistas, impulsionando os ativistas a buscar mudanças profundas. Uma nova liderança emergiu nos portos de tratado para proteger os interesses econômicos locais contra a invasão estrangeira.
- Conexões e Estratégia de Zhang: Zhang manteve laços estreitos com oficiais moderados e elites urbanas, vendo o desenvolvimento industrial e educacional como pilares da força ocidental. Sua origem camponesa o colocava como "estrangeiro" para a gentry conservadora, e ele usou o discurso da modernidade para desafiar o domínio local. A colaboração entre a elite urbana e o estado Qing permitiu a Zhang perseguir seus projetos modernizadores. Essa perspectiva de classe compartilhada levou ao desprezo pelos camponeses.
- Poder Fiscal e Monopólio: A dependência crescente do estado Qing de impostos comerciais facilitou investimentos privados e a aquiescência a medidas de negócios que "pavimentaram o caminho para a primeira libertação do capitalismo chinês". Direitos de monopólio foram concedidos para proteger as "indústrias nascentes".
- Dasheng e o Controle: Dasheng usava seu controle de fato para fixar preços, criando uma "aura oficial" para impor preços não-negociáveis e abaixo do mercado aos camponeses. Os camponeses resistiam adulterando o peso do algodão e do tecido.
- Desenvolvimento da Terra: Zhang usou os lucros de Dasheng para fundar empresas de desenvolvimento de terras, convertendo pântanos salinos em terras de algodão produtivo, alinhando a agricultura com suas necessidades industriais.
- Câmara de Comércio de Nantong: Desempenhou um papel crucial na busca de autonomia local por Zhang, agindo como expressão política do poder da elite urbana moderna. Assegurou a hegemonia de Dasheng no mercado de fios, protegeu seu monopólio na coleta de algodão e proibiu empresas externas de comprar diretamente dos camponeses.
6. Estendendo a Influência do Capital Comercial
Argumento Principal: O programa "autossuficiente" de Zhang Jian e o governo da gentry moderna em Nantong representaram um breve momento de transição. Em meados da década de 1920, o sistema de Zhang se desintegrou devido à crescente tensão e conflito entre os moinhos Dasheng, a comunidade mercantil e os consórcios financeiros, demonstrando a crescente monopolização de um novo mercado nacional de commodities por poderosas forças de capital estatal e capital comercial.
Como o argumento é desenvolvido:
- Desintegração do Modelo de Zhang: Apesar do sucesso inicial, o programa "autossuficiente" de Zhang se desintegrou por volta de meados da década de 1920. Dasheng perdeu seu monopólio na coleta de algodão e lutou para comprar suprimentos devido a conflitos com bancos modernos e mercadores.
- Conflito Mercador-Dasheng: A crescente tensão entre Dasheng e a comunidade mercantil, especialmente sobre o comércio de algodão, é essencial para entender essa mudança. Os mercadores investiram principalmente para seu próprio enriquecimento, buscando controle sobre os suprimentos de algodão, o que prejudicou Dasheng.
- Comercialização do Algodão: As firmas guanzhuang compravam tecido diretamente de famílias camponesas a preços diários. A autora detalha o processo de avaliação do tecido, que, embora aparentemente transparente, podia confundir os camponeses.
- Limitação das Escolhas Camponesas: Os mecanismos de mercado interligados resultaram na diminuição das escolhas para os camponeses; a entrada em um mercado reduzia suas opções em outros.
- Transformação Espacial: Nantong tornou-se o centro de um novo complexo comercial-bancário, concentrando capital e benefícios econômicos na cidade e limitando o desenvolvimento em outras áreas, criando uma nova periferia. Haimen exemplifica essa periferização, com sua indústria têxtil dependendo da rede Nantong-Xangai para financiamento, envio e marketing, e pouca indústria ou bancos urbanos locais.
- Pawnshops e Bancos Nativos: Os pawnshops e bancos nativos, tradicionalmente controlados por senhores de terras em lugares como Rugao, declinaram, enquanto em Nantong, os bancos controlados por mercadores expandiram seu controle sobre os pawnshops restantes.
- Modernidade Semicolonial (Zhang Jian): O programa de Zhang Jian é visto como um exemplo de "modernidade semicolonial" concebida por elites urbanas "nacionalistas", replicando antigas justificativas confucianas de governo. Esse projeto duplo foi o cerne da formação de classe da elite e de um novo modo de poder modernista, permitindo a criação de "reinos privados".
- Declínio da Indústria Moderna: A indústria moderna no delta do norte é caracterizada como uma "tentativa fugaz e amplamente malsucedida de contrapor o crescimento do poder imperialista na China". Seu declínio se deveu a limitações internas, como políticas financeiras insustentáveis ditadas pelo controle do capital mercantil-usurário sobre o mercado de investimento.
7. A Política do Caminho Camponês e Modernista nos Anos Finais da Dinastia Qing e Início da República
Argumento Principal: A ação coletiva camponesa se intensificou no final do período imperial, influenciando poderosamente as ações dos senhores de terras e do estado. A elite modernista falhou em estabelecer hegemonia desde o início, pois os camponeses resistiram a seus projetos (como novas escolas e impostos para projetos ocidentalizantes) como ilegítimos e anti-camponeses, articulando um discurso nacionalista autônomo. Isso revela duas trajetórias de modernidade conflitantes: uma impulsionada pela elite e outra pelo campesinato.
Como o argumento é desenvolvido:
- Resistência Camponesa: As lutas camponesas são apresentadas como organicamente conectadas. Atacaram símbolos da modernidade e resistiram a impostos para projetos ocidentalizantes, demonstrando uma clara percepção da conexão entre a presença estrangeira e o poder da elite. A autoridade da elite declinou precocemente devido à sua incapacidade de estabelecer hegemonia.
- Aliança dos Proprietários de Terras com a Revolução: Os proprietários de terras do delta do norte apoiaram a revolução de 1911 para controlá-la e "entrar na onda" da reforma para "assumir o poder de liderar". Seu envolvimento na autogestão se entrelaçou com uma ofensiva para reassumir o controle de um campesinato recalcitrante. Isso expôs a "postura anti-camponesa" dos modernizadores e a rejeição fundamental de seus projetos pelos camponeses.
- Rebelião de Pingchao (Nantong, 1912): Um levantamento multiclasse em larga escala contra um novo imposto sobre diques proposto por Zhang Jian e a elite moderna. Os líderes usaram templos locais e a Sociedade da Mente Única para mobilizar os camponeses, formando a Sociedade de Segurança Pública em oposição direta à Sociedade de Proteção de Diques da elite. Isso demonstrou uma "maneira diferente de ver e interpretar o mundo", com as lutas camponesas se tornando mais radicais e emancipatórias, rejeitando a legitimidade da elite e declarando independência do estado republicano.
- Nacionalismo Camponês: Os protestos camponeses generalizados do início do século XX são vistos como um movimento nacionalista que questionava o significado e a forma da nação. A decisão dos camponeses pobres e destituídos de abraçar a Revolução e os novos aliados comunistas foi um momento crucial na formação de uma "história nacional camponesa". Isso sugere a existência de uma "nação camponesa" baseada em uma cultura subalterna distinta e um desenvolvimento independente, separado da nação centrada no estado.
- Estado Qing e Proprietários de Terras: A crescente intervenção do estado Qing na coleta e definição de aluguéis, combinada com a resposta dos proprietários de terras, moldou a resistência camponesa.
8. Constituir "Capitalismos Semicoloniais": Senhorio Moderno, Agricultura Comercial e Trabalho Rural
Argumento Principal: Este capítulo desafia a suposição de que a agricultura gerencial era insignificante no delta do Yangzi. Em vez disso, argumenta que o senhorio gerencial (de proprietários e semiproprietários ricos) com trabalho assalariado emergiu como uma tendência de desenvolvimento significativa no delta do norte no início do século XX. Esse desenvolvimento baseou-se em formas de trabalho assalariado disfarçado, o que ajudou a acumular capital agrário explorando famílias camponesas parcialmente autônomas.
Como o argumento é desenvolvido:
- Crítica às Premissas: Estudos sobre o delta do Yangzi frequentemente presumem a insignificância da agricultura gerencial ou usam o sul do delta como modelo geral. A autora argumenta que dados estatísticos comparativos para o delta tornam essas premissas problemáticas.
- Agricultura Gerencial no Delta do Norte: Dados de pesquisa para Nantong-Haimen-Qidong apontam inequivocamente para o senhorio e a agricultura gerencial de semiproprietários-camponeses ricos com trabalho assalariado como tendências de desenvolvimento significativas no início do século XX.
- Sistema de "Uma Terra, Dois Donos": A propagação gradual desse sistema dificultou a agricultura em grande escala.
- Comunidades Superpovoadas e Despovoamento: A agricultura gerencial ocorreu ao lado de comunidades agrícolas superpovoadas, onde os camponeses pobres tinham cada vez menores posses, pagavam "novos e duros aluguéis do algodão" e trabalhavam como mão de obra assalariada ou contratada. O despovoamento forçado por despejos de arrendatários e a retomada de terras pelos senhores de terras gerenciais foram uma precondição para suas atividades e criaram uma força de trabalho instável e desprivilegiada para o capital urbano.
- Trabalho Assalariado Disfarçado: Walker critica a suposição de que o desenvolvimento comercial/capitalista leva inevitavelmente a formas de trabalho "avançadas" e ao desaparecimento de formas "pré-capitalistas". Argumenta que o trabalho vinculado, não-livre e assalariado disfarçado desempenhou um "papel sistêmico" nos processos de acumulação de capital agrário. No delta do norte, isso levou os camponeses a ficarem "ainda mais plenamente sob o domínio do sistema de exploração emanando da cidade de Nantong".
- Resistência Camponesa: Os camponeses encontraram formas de resistir às pressões do caminho semicolonial-modernista, mantendo uma "existência parcialmente autônoma" na terra, mudando para culturas alimentares de subsistência. No entanto, essa independência, paradoxalmente, reduziu os custos salariais para os empregadores. Os camponeses subsidiavam os produtos comerciais ao não calcular os custos de seu trabalho na produção de subsistência.
9. Subproletarianização nos Distritos Industriais
Argumento Principal: O capítulo detalha o processo de "subproletarianização" entre os camponeses pobres nos distritos industriais de Nantong, onde se tornaram uma força de trabalho marginalizada para o capital urbano. Demonstra que o crescimento econômico dependia da exploração do trabalho rural através da produção de pequena mercadoria, e não de um desenvolvimento capitalista sustentado.
Como o argumento é desenvolvido:
- Estudo de Touzongmiao: A pesquisa se baseia nos levantamentos da South Manchurian Railway Company (Mantetsu) em Touzongmiao, uma aldeia na área industrial de Nantong. Esses levantamentos revelaram a pobreza generalizada, moradias precárias e condições de vida insalubres entre os moradores da aldeia.
- Refutação dos "Padrões de Vida Crescentes": A autora contesta o argumento de que o aumento do consumo de tecido de algodão indicava melhorias nos padrões de vida. Philip Huang argumenta que esse aumento se deve ao fato de que o tecido feito à máquina era menos durável do que o feito à mão. Walker conclui que o crescente consumo de tecido em Touzongmiao era, na verdade, um "barômetro da pauperização camponesa", já que os moradores substituíam o tecido caseiro por bens de mercado inferiores devido ao empobrecimento sistêmico.
- Interligação Indústria Doméstica e Agricultura: Embora a fiação e a tecelagem representassem uma parte significativa da renda familiar para os camponeses pobres, a terra continuou sendo central para a autonomia doméstica. A ausência de um sistema de putting-out impediu a proletarização total, mantendo a interligação entre a agricultura e a indústria doméstica.
- "Trabalho Assalariado Disfarçado": Os camponeses pobres, ao serem simultaneamente "trabalhadores subproletarizados e agricultores de subsistência repeasantizados", exemplificam como sua autonomia parcial lhes permitiu evitar a dependência total do mercado, mas também reduziu os custos salariais para os empregadores.
- Consciência Camponesa e Caráter de Classe: A "derrocada das famílias subproletárias" gerou impulsos distintos, incluindo o fortalecimento da ajuda mútua e do trabalho de troca. A rebelião "Queimando Zhendong" (Taixing, 1923-24) é apresentada como exemplo de resistência camponesa explícita, mostrando uma "política camponesa pobre-subproletária". Isso levou a uma "política camponesa pobre mais explícita" e à escalada do conflito de classes devido ao aprofundamento da subproletarianização.
- Conexão Urbano-Rural no Ativismo: Camponeses que trabalhavam como trabalhadores casuais em Xangai frequentemente retornavam para casa com notícias de greves de trabalhadores, difundindo ideias políticas e econômicas, demonstrando que as fronteiras entre a cidade e o campo nas ideias revolucionárias não podiam ser facilmente traçadas.
- Movimento Comunista: Antes de 1927, muitos camponeses do delta do norte apoiaram os comunistas. O primeiro levante comunista no delta do norte ocorreu em Lugang (Rugao) em 1928. A autora sugere que a política revolucionária começou com a "política camponesa", enraizada na cultura camponesa do delta e nas lutas semicoloniais radicalizadas.
Conclusão: Semicolonialismo e o Caminho Camponês
Argumento Principal: A China semicolonial foi marcada por dominação, violação e resistência, manifestando-se em duas trajetórias conflitantes: um caminho da elite (impulsionado pelo imperialismo e pelos detentores do poder local, centrado em Nantong) e um caminho alternativo camponês (resistência e desenvolvimento independente). O semicolonialismo operou através de formas de dominação fragmentadas, múltiplas e multifacetadas, caracterizadas por "capitalismos" concorrentes que refletiam o impacto imperialista e as lutas locais por poder. O livro afirma a existência de uma "nação camponesa" como um local de contestação, influenciando o passado e o futuro da China.
Como o argumento é desenvolvido:
- Trajetórias Duais: Reafirma que o encontro semicolonial em Nantong e no delta do norte do Yangzi assumiu a forma de duas trajetórias interligadas, mas conflitantes. O caminho da elite, envolto em um discurso universalizante de progresso e modernidade, reestruturou a economia, promovendo a dominação imperialista. O caminho camponês representou uma linha de desenvolvimento independente, resistindo ao projeto da elite.
- Modo Semicolonial: Muitos "Capitalismos": O livro desafia a visão monolítica do colonialismo. Na China, devido à ausência de um estado colonial direto, os agentes imperialistas dependeram de alianças com as elites chinesas, promovendo "múltiplas hegemonias" ou uma "estrutura de poder subcontratada". Esses "capitalismos concorrentes", incluindo as empresas "nacionalistas" de Zhang Jian, tornaram-se a expressão da dominação semicolonial. Embora pudessem complicar os objetivos imperialistas, eles aprofundaram a economia camponesa de pequena mercadoria.
- Exploração e Reprodução de Mão de Obra Barata: A acumulação de capital na China semicolonial derivou principalmente da exploração de trabalhadores, organicamente ligada às economias domésticas e de subsistência camponesas. Essa ligação contradiz as visões desenvolvimentistas do capitalismo "esmagador"; em vez disso, "super-explorou" e reproduziu mão de obra barata ao subsidiar baixos salários. As elites locais desempenharam um "papel diretivo" na expansão da economia camponesa de pequena mercadoria, já que o imperialismo não podia orquestrá-la diretamente.
- A Nação Camponesa: A evidência de uma "linha de desenvolvimento separada e de longo prazo" entre os camponeses do delta exige uma reavaliação dos conceitos de nação, indo além de uma visão centrada no estado. É proposta a noção de uma "nação camponesa", enraizada em um domínio cultural subalterno distinto e em uma linha de desenvolvimento camponesa independente. Essa "nação camponesa provisória" articulava uma ampla visão para organizar a sociedade e para a identidade coletiva, fundamental para o nacionalismo.
- O Caminho Camponês na Perspectiva Contemporânea: A persistência do caminho camponês sugere que qualquer agenda nacional para o futuro da China deve considerar a agricultura e as perspectivas dos camponeses. O programa comunista revolucionário ressoou com os discursos camponeses, e Mao Zedong, como Gramsci, re-teorizou o papel dos camponeses, reconhecendo sua resistência ao capitalismo e a importância de sua cultura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário